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Livro Coletivo - Cap. 5

por ornitorrincoquantico, em 27.08.09

Capitulo 5  - Suspeitas

Roberto Souza

 

 

 

“Você de novo!” pensou Ricardo tão surpreso que nem se lembrou de saldar o médico, este tão a vontade que ofereceu-lhe uma cadeira.

-         Com certeza me acompanharia numa refeição rápida.

-         Tenho de ir ao hospital, minha...

-          Como disse, é rápido – reforçou, com um olhar quase hipnotizante – também tenho meus compromissos, mas primeiro devemos atender direito nosso estômago. Como vi, o senhor não comeu direito.

Ricardo, intrigado com a possibilidade de estar sendo vigiado, acabou por aceitar o convite, e realmente satisfazer seu apetite; sentia que precisava de forças extras .

Sentaram-se de fronte, e fizeram os pedidos. O médico nunca ocultava seu encantador sorriso.

-         E como está sua mãe? Não a vi mais.

-         Está bem,... acho que só foi um susto da idade.

-         Oh, quem diga eu – sorriu novamente -  às vezes acredito que cheguei ao fim da vida, é angustiante! – empolgou-se ao contar as diversas doenças que já tivera.

Ricardo não o encarava, mantia-se cordialmente atento, talvez incomodado. Quando foi surpreendido mais uma vez.

-         O senhor trabalha num banco, não? – disse subtamente

-         Como o senhor sabe?! – falou automático e tenso.

-         A ficha do hospital -  tranqüilizou Salomão, recebendo sorridente a bandeja trazida pelo “Gordo” em pessoa (era quase uma celebridade entre seu meio). – ... Parecem deliciosos! Roger -  elogiou o médico, porém o gordo se voltou a Ricardo.

-         - O senhor não costuma freqüentar aqui.....

Ricardo moveu os olhos friamente os olhos friamente direcionando a ele,  e voltou a fixá-lo em Salomão.

O Gordo sem parecer ofendido, retirou-se dando tapinhas nas costas do medico, que ao acomodar os salgados e refrigerantes na mesa comentou:

-         Ótimo homem, o Roger..... – depois apanhou o petisco – Dizem que isso faz mal ao coração....

-         O Senhor deve saber, é médico, não é? – alfinetou Ricardo de forma estranha.

Dr. Salomão calou o sorriso e o retomou de forma desconcertada, levantando subitamente.

-         Sr. Ricardo, me desculpe, mas estou começando a ficar atrasado... foi uma ótima companhia, obrigado. Não seria mal se eu levasse um para a viagem, infelizmente tenho que ir ... Estimo melhoras a sua mãe... Até a vista. – falou da forma mais amigável possível dirigindo-se a porta.

Agora, junto a duvidas, Ricardo não sentia fome mesmo, tinha certeza que o vigiavam. Este homem com certeza não é médico. Tudo isso deu um nó em seu estômago que o impediu de lembrar de pagar, ou notar que Salomão havia deixado o dinheiro da conta na mesa. Simplesmente saiu.

Ao atravessar a rua, se tocou “Eu não tenho ficha alguma no hospital! Os dados são da Rosana!”.

Seus pés apertavam inquietos no sapato. Um solavanco mental que o perturbou até fisicamente, o deixando trêmulo e tenso. Sentia que estava a beira de um desmaio. Tudo fluía como uma bola de neve que vinha em sua direção “E por que eu?” -  pensava.

 

Entrou no quarto do hospital, lugar pouco aconchegante de paredes verde-água, e quadros de montanhas russas, contudo nada tirava aquela certeza de que era um hospital.  Rosana lia uma revista numa cadeira pouco confortável, enquanto D. Lucia dormia num sono muito profundo.

- Rô! – cochichou.

Ela percebeu e gesticulou para que eles saíssem do quarto. No corredor ambos se falaram.

- Como ela está?

- Bem, acham que é melhor deixa-la em observação, pelo menos 12 horas. Ela tá dormindo ha um tempão, quanto menos ela sinta que está num hospital melhor. Sabe no fundo isso me deu um susto muito grande.

- Não foi nada, é coisa da idade.

- É, eu sei mas, quando a gente vê que está perdendo é que damos o valor necessário. E eu não a trato tão bem quanto ela merece.

- Mas também  nunca a trata mal. Fomos criados assim, sem muita manifestação de afeto.

- É verdade, poderia ser diferente. Com meus filhos será diferente.

      Rosana percebeu ter tocado fundo a ferida do irmão, então entrou no quarto para apanhar suas coisas, e saiu em seguida.

Ricardo agora assumia a companhia da mãe. Quando ela já ia, voltou-se a ele:

- Ah, Ricardo já estava esquecendo, a Claudia veio um pouco antes de você chegar, e disse pra você ligar para ela urgente... Pelo que pude entender, a Isadora causou alguma coisa que envolve fogo na escola, e eles querem falar com você. Ela disse que você é o culpado da menina estar revoltada, os professores devem te achar um monstro.... Que Deus te ajude, hein...

- É, e todos os santos também! – respirou fundo e perguntou banalmente – Veio algum médico chamado Salomão Carlos aqui?

- Bem, não. Só veio um senhor, que tava angustiado com a doença do irmão que precisa de hemodiálise, e queria conversar pra esquecer um pouco.

- Como é que ele era?

- Sei lá, muito alto, careca... deve ter uns 50 anos...

Ricardo assentiu.

- O que vocês conversaram? Ele especulou muito?

- Por que você ta perguntando isso?

- Atoa, só curiosidade.

- A gente falou sobre um monte de coisas relacionadas a doenças, ele perguntou muito sobre a mãe, e ficou contando histórias passadas. Ele era dono de um bingo, muito simpático ele, com um belo sorriso. Cativador.

 

 

Sentado naquela cadeira torta de tonalidade parda, observando a palidez de sua mãe, não sabia o que pensar. Eram tantas coisas que já era para estar acostumado, mas não. Contudo, é bem verdade que de um dia pro outro sua  vida saiu do drama cotidiano, e despertou uma espécie de aventura inacreditável, se é que se podia chamar-se de aventura. Isso no fundo empolgava. Mas os problemas em casa já eram o suficiente para desiludi-lo novamente.

Certamente se ligasse  pra Claudia viriam  mais problemas, por isso não o fez ate agora. Sua cabeça latejava.

Foi ao banheiro do quarto, olhando no espelho, parou imóvel. Há muito tempo não contemplava seu rosto. Os olhos que outrora eram vivos e radiantes, hoje estavam rodeados por orelhas, e não traziam aquele calor que o acompanhou durante a adolescência, o sorriso há muito não tomava-lhe o rosto. Não era o tipo de futuro que imaginou um dia, sabia que tinha o poder de mudar, mas para isso destruiria coisas que considerava importante, mas o que seria mais importante que ele próprio?... Tinha tornado-se um covarde, mas os acontecimentos recentes a seu modo de  ver, serviam como uma espécie de alavanca para dar-lhe uma força maior. Passou-lhe o tempo em que só esperava o dia de sua morte. Com certeza morrerá um dia, e que tipo de história terá pra contar? Duvidas, tristezas, angustias, medos? Tudo por conta dos outros. Já era Hora de mudar isso, fazer sua vida valer a pena, parar de girar ao redor dos outros, fazer os outros girarem ao seu redor. Se não se importar consigo mesmo, quem vai importar?

Seu coração se alegrou com essas reflexões, era tão fácil sair desse buraco, era só dar valor em si mesmo. Desta reflexão até a ação seria um ponto trabalhoso, Ricardo era lerdo em atitudes, mas estava decidido.

Foi interrompido pelo celular tocando, era Claudia.

Mordendo os lábios de ódio desligou.

- Não é coisa boa mesmo... vai só piorar-me ainda mais -  parou no pensamento, e pela primeira vez em muito tempo, deu mais valor em si do que nos outros, isso o animou de algum modo.

Voltou para perto da cama, e num transi olhando sua mãe, decidiu procurar pela tal “Josiane”ou Vanderly. Quando Lucia inconsciente pronunciou:

-  Davi... Ro...

“Do que ela estaria falando?” – concluiu ser um delírio não procurando mais coisas pra se preocupar.

Perambulou pelo hospital, e não encontrando ninguém, foi até a portaria.

- Desculpe, mas eu gostaria de saber se a Josiane trabalha aqui.

- Só um momento – disse uma rapariga com belos cabelos ruivos – Bom, trabalho sim... duas, qual o senhor queria?

- Bom...

- Ah, espere, esta aqui, Josiane Del Porto pediu demissão ontem.

- Deve ser essa mesma! Você poderia dar-me o endereço dela?

- Desculpe, mas é contra a ética do hospital .

- Nem o telefone? E a outra Josiane?

- Não, desculpe .... Se me der licença.

 

Passou o resto do tempo, pensando-se não deveria ir a polícia, contudo  só iria piorar a situação o envolvendo-se  ainda mais com o que nem sabia o que era. Conclui que Cibele com y devia ser algum tipo de código, embora não tivesse nenhum argumento para defender sua idéia,  até pensou em visitar a família de Jéferson, ou dar um jeito de pegar os papeis da Josiane na portaria do hospital. Envolvia-se numa inquietação pertubadora.

Porém,  no momento achou mais viável ir falar com a Cristina, sua chefe, sobre o livro, talvez voltar a falar com o Susi. Era melhor acalentar seu espírito de investigador secreto.

Acabou por dormir mergulhado em pensamentos absurdos. Nem nos sonhos tinha paz...

Depois de relaxar um pouco e dormir quase cinco horas, acordou com beliscões agudos de Rosana.

- Como é bom te ver tranqüilo...

- E, dormir as vezes faz bem. Cadê a mãe? – notou a cama vazia.

- Acabaram de levá-la para fazer exames...

- Você falou com ela?

- Não, estavam levando-a pelo corredor quando eu cheguei... achei os olhos dela tão ralinhos, para quem só estava em observação.

- Não fica pondo coisas na cabeça. Ta tudo bem. Preocupa não... Agora eu vou em casa tomar  um banho, para ir ao banco... e por que não, agüentar um pouquinho da Claudia, né? – brincou com a própria desgraça.

- Boa sorte. Valeu mesmo por ter passado a noite aqui com ela... To te achando meio estranho.

- Como estranho? – interrogou esperando uma resposta positiva.

- Parece meio brincalhão, a tristeza deu uma sumida?

- É talvez... – sorriu internamente.

- Você é a primeira pessoa que acorda feliz depois de passar uma noite no hospital.

Despediram-se, e Ricardo se foi.

No estacionamento do hospital, encontrou no limpador de pára-brisa um bilhete com seu nome. Angustiado por saber que não seria nada agradável, tremeu, desiludindo que fosse uma multa, ainda mais por estar num estacionamento. De nada adiantou aquela luz do sol iluminando um dia que para ele certamente seria escuro. Abriu o bilhete e nele dizia em letras garrafais:

“APAREÇA NA JANELA DO SEU ESCRITÓRIO AS 9:00, SUA VIDA VAI CORRER PERIGO EM BREVE”.

Sua garganta fechou, não havia mais ar... leu e releu o bilhete, procurando inutilmente algo suspeito.

Abriu a porta do carro, sentiu medo de entrar. Imaginava tudo, até bomba. Talvez fosse paranóia, mas era melhor não arriscar.

Cambaleando foi até o ponto de ônibus. Meio vazio de sentimentos esperou quieto e triste. O coletivo chegou em seguida, estava lotado.

Se espremendo em meio ao tumulto, embrenhou-se, junto àquela gente marrom, que exalava odores fétidos sacolejando de um lado para o outro naquele coletivo, que com certeza já teve melhores dias.

Ficou de pé, de frente a uma velha corcunda de chinelo de dedo que comia sofridamente um rocambole, ela não tinha dentes, trazendo em seu colo algumas assustadoras carnaúbas.

Há muito tempo não andava de ônibus. O status de seu emprego, permitia-lhe distância deste “mundo”. Era interessante observar os passageiros, cada um aparentando suas próprias chagas, (algumas realmente enormes).

Em meio a multidão, um homem se aproximou:

- Ricardo? Olá ! Lembra-se de mim?

- Claro! O que houve com seu braço?

 

No banco Francisco atendia um telefonema:

- Não, o Ricardo ainda não chegou... Não, ele não está com uma amante. É que o hospital fica longe... não estou encobrindo ele não... ta ... thau  -  desligou – Puta!

- Nossa Chico, aposto que era a biscate da Claudia, acertei? – disse com ironia a Alexandre.

- Dez pontos pra você! Mulherzinha estressada! Dá nos nervos... Deve ser falta de sexo.

- Ah, isso pode ter certeza que não é. Pode sim.

- Por que? Você ainda anda traçando ela?

- Acredite se quiser... ela é boa na cama, você devia experimentar.

- Dá um tempo! – riscoteou Chico.

- Não,  é verdade, ela sabe fazer até...

- Ei!!!! – gritou Andréa – Me respeite, eu to aqui! E Alexandre, não é legal você ficar ai falando que já catou a mulher dos outros, já pensou se o Ricardo fica sabendo dessa fofoca?

- Quem disse que é fofoca? E se ficar sabendo que se foda, deu trela, eu cato mesmo! Bobeia pra você ver.

Ofendida Andréa lhe deu um tabefe tão forte que marcou seu rosto, e retirou-se da sala.

- Depois dessa, eu pediria pra ir ao banheiro e iria embora... – brincou Chico.

- Toda mulher é igual... primeiro cama, depois tapa.

O telefone tocou. Francisco foi atender quando Andréa entrou abruptamente tirando o monofone de sua mão com violência. Olhou-o firmemente:

- É pra mim!

- Ta legal, não sou tão fã de telefone assim.

Saiu de perto, e junto a Alexandre observavam curiosos.

- Oi... bom dia -  disse desapontada – não, tente ligar mais tarde. Posso sim, 27 de janeiro? Tudo bem... Assim que eu encontrar eu te ligo... thau -  desligou ociosa – Que saco!

- Não era quem você esperava?

- Eu  não esperava ninguém. É um cliente querendo um arquivo velho... Será que a chave do deposito tá com a Susi?

- A responsabilidade é dela... mas não a esbofeteia, pode machuca-la. – disse Alexandre.

 

Andréa foi até o 1º andar atrás de Susi, e a encontrou no balcão ao telefone.

- Está bem doutor... Eu seguirei todas sua anotações...

- Susi! Você ta falando certo? O que houve? – disse surpresa Andréia.

Desligou o telefone assustada.

- No telefone a gente tem de falá mió, né? Sinão fica esquisito.

Andréia deu um sorriso compreensivo.

- Olha, eu preciso da chave do depósito de arquivos, tá com você, não?

- A tá sim. Vamu lá cumigo buscá.

 

Ricardo chegou em casa, ficou feliz ao saber que Claudia havia saído, “momentos de paz”.

As meninas estavam na sala vendo programas infantis com ênfase no erótico, se é que isso é possível!

- Oi amores!

- Oi pai – disseram, Laura calorosa, e Isadora como sempre fria.

- Isadora, o que você aprontou na escola?

- Ela pôs fogo no cabelo da Geralda! – comentou Laura.

- A Professora?!

- É...

- Isadora! Você ficou louca? O que...

Ela jogou o controle da TV pela janela e disse revoltada.

- Já vai começar!? Chega! Não agüento mais! Vai pro quinto dos infernos! Some ! – saiu batendo o pé.

Isso o apertou no coração, sabia que deveria corrigi-la, mas não sabia como. Apesar da revolta da menina se explicar simplesmente pelo fato de ela viver naquela casa.

Tomou um merecido banho. Despediu-se de Laura e foi ao banco de táxi. Com a cabeça cheia de coisas, e olhando o relógio: 8:45. Precisava estar lá em quinze minutos. Mas pra que? E se não fosse? Bem como não tinha muito a perder, decidiu que estaria lá.

Chegando no banco, viu Claudia entrar, a incrível estrutura de platina perdera a magnitude ao encobrir uma pessoa tão ...

Não queria topar com ela, seria outro escândalo em publico, e como já estava com os nervos a flor da pele, não custaria agredi-la.

Entrou sigiloso. Não a viu nos caixas eletrônicos nem nos balcões. Pegou o elevador de serviço e no 3º andar, viu que ela estava em sua sala conversando com alguém.

Já eram 8:55.

- ... Nunca, mas depois daquele dia quase fiquei cega – disse Claudia de uma forma divertida (!).

- Verdade?! -  era a inconfundível voz de Alexandre.

- Nunca, nunca – continuava divertida -  Depois Ricardo saiu com aquela puta da mãe dele, e eu o achei debaixo da mesa, tava lá o tempo todo, pelo eu acho.

- Ah, agora entendi. Esperta você hein? Vamos lá na minha sala, vou passar um fax, quem sabe exista mais um e a gente não sabe né? – disse em tom intrigante.

Claudia e Alexandre a  sala sorridentes, entraram no escritório dele.

Ricardo, na curva do corredor, não pensou em nada, só lhe interessou ir ate a janela. Lá olhou para rua, tinha uma ótima visão da avenida meio movimentada naquele dia que agora começava a se nublar, os outros prédios se acumulavam dando uma leve sensação de claustrofobia, coisa que já estava acostumado. Procurou alguém, qualquer, mas não viu nada de incomum. Ficou olhando um bom tempo, nada diminuía sua expectativa, nem a hipótese de estarem rindo dele em algum lugar, quando do nada surgiu uma elegante mulher de preto, erguendo a mão  e olhando para ele.

Gesticulou para que ele descesse e viesse falar com ela. Seja lá como for, sua vida realmente deveria estar correndo perigo.

Saiu aos pulos do escritório, deparou-se novamente com Alexandre  e Claudia, estes ficaram surpresos ao vê-lo. Já Ricardo às pressas, encarou o amigo, e saiu mudo, mas com um ar ameaçador, foi ao elevador.

- Não creio que era o Ricardo... Isso tudo é estresse aqui do banco?

- Vai se saber. -  comentou Alexandre.

- Será que ele...

Alexandre fez que não com a cabeça, acalentando a mulher.

Apreensão, euforia, medo, tudo misturado acabou por levar Ricardo a calçada, onde olhava fixamente para a mulher do outro lado da rua.

Ela atravessava a rua numa elegância que chamava atenção, a perfeição de seu rosto só foi abalada pelo carro, que de um arranque repentino veio em sua direção, a arremessando longe.

Na terrível cena que acabara de ocorrer Ricardo, correu à moça a amparando nos braços. Poucas pessoas começavam a se aglomerar.  Ela aparentemente desfalecida, usava suas últimas forças.

- Você... deveria ter morrido no lugar... do Jéferson... a brinc...cadeira... você fez aquilo,... você vai...

No labirinto de palavras, Ricardo foi despertado por uma dor que o cortava as costas. E a arma, ainda manchada de sangue, preparava para deferir-lhe outro golpe, quando no reflexo se defedeu com socos repetitivos. Nem sabia o que estava fazendo quando notou estar soqueando uma senhora bem  velha, com um punhal na mão. Dos aglomerados ninguém moveu uma palha para ajudar, apenas observavam ocos.

- O que a senhora está fazendo!?? – gritou ele conferindo o sangue que escorria nas costas.

A senhora em prantos, largou o punhal e pôs a chorar desesperadamente.

- Meu filho... eu amava meu filho... foi você que o matou...

Todos dali ao redor olharam para ele em olhar de condenação. Chocado com tudo que ouvia, voltou-se a moça no chão que agora jazia em paz.

No meio da confusão, algumas pessoas saíram correndo do banco, gritando e assustadas, outras até chorando, ocorrera outro assassinato no banco, agora no depósito de arquivos.

 

Sem saber o que estava acontecendo só lhe passou pela cabeça sair dali, e fugiu, totalmente perturbado, correu como se estivesse sendo perseguido. Com remorso do que não fez, ou o que fez.

Ao virar a esquina, um batalhão de viaturas policiais fechou todos as ruas de acesso ao banco.

Correu duas quadras abaixo, quando parou um veiculo branco na sua frente, e quem dirigia era nada menos que Salomão Carlos.

- Entre Sr. Ricardo! Rápido! Eles acham que você matou o bibliotecário!

 

Sem mais palavras Ricardo desmaiou.

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publicado às 01:41

Livro Coletivo - Cap. 4

por ornitorrincoquantico, em 19.08.09

 

Capítulo 04
Um Dia no Hospital
 
Por Giuliano Mendonça
 
 
 
 
_ Ambulância chegando! Vamos abrir caminho aí pessoal!
_ Maca, rápido! Rápido gente!
No instante seguinte, a Caravan da prefeitura invadia com estardalhaço o pátio da emergência do hospital São Pedro e São Paulo.
_ Ro!
_ Graças a Deus você está aqui! Que coisa horrível! Horrível! Ela estava bem na minha frente assistindo televisão e, de repente, caiu no chão e começou a se contorcer... a ter convulsões... a língua enrolada... achei que ela fosse morrer ali na minha frente. Graças a Deus conseguimos esta ambulância para trazê-la.
_ Como ela está?
_ Ela foi medicada no caminho. O dr. Santana disse que ela está estável, fora de perigo por enquanto. Mas eles precisarão fazer mais exames pra tentar achar a causa.
_ Mãe? Fala comigo mãe!
_ Agora não dá, Rick. Ela está sedada. Temos que esperar eles terminarem.
 
 
 
 
Purgatório... Eis uma boa comparação para sala de espera de hospital.
Ambiente absolutamente frio. Limpo. Não, mais do que limpo, estéril. Como se o mundo tivesse parado para aquelas pessoas que lá estão. Não importam o tempo lá fora, os problemas lá de fora, a vida lá fora. Só existe a espera. Espera em saber como se dará a transição que é esperada. Se o ente querido vai se curar ou vai piorar. Se os bebês vão nascer com saúde, se é menino ou menina. Ninguém pensa nem fala nada que não esteja relacionado com aquilo que é o motivo da espera. Contam-se histórias sobre aquelas pessoas, amigos relatam experiências parecidas que um dia já viveram, na tentativa de levar conforto e mostrar que isso pode acontecer com qualquer um. Dizem que antes de morrer a vida de uma pessoa passa por diante dos seus olhos. Na verdade, a vida dela também passa por diante dos olhos dos outros, que estão lá na sala de espera do hospital. E quem inventou a sala de espera fez um excelente trabalho. Um corredor branco, com um banquinho desconfortável e um relógio de parede. Ideal para dar a sensação de que aquilo não vai acabar nunca.
Lá estavam Ricardo, sua irmã Rosana e Cláudia, sua esposa, que por algum motivo ignorado insistiu em acompanhá-lo ao hospital. Estavam os três sentados lado a lado. Sem agressões e sem insultos, mas também sem amor, carinho ou um pingo de calor humano.
_ Cláudia... Você pode ir embora. Não adianta você ficar aqui igual urubu na carniça, ainda não vai ser hoje que você vai ter o prazer de ver minha mãe num caixão. Eu me viro sozinho por aqui. Alfinetou Ricardo, sem saber exatamente por quê.
_ Escuta aqui Ricardo... Cláudia preparou o revide. _ Deixa pra lá. E, para sua surpresa, desistiu dele. _ Depois a gente conversa.
Claro. A conversa sempre fica pra depois, pensou Ricardo. E ao pensar em conversa, se lembrou que já passava das oito da manhã e era melhor ligar para a Cristina e avisar que ia se atrasar pro trabalho.
_ Puxa, Ricardo. Sua mãe? Que coisa! Você precisa de alguma coisa? Eu vou até aí!
_ Não, Cristina. Não precisa. Acho que já está tudo sobre controle.
_ Chego num minuto. Aí a gente se fala.
Sua mãe, sua irmã, sua mulher e agora, sua chefe. “As mulheres da minha vida”, pensou Ricardo.
De repente, percebeu ao seu lado um homem alto, devia ter uns dois metros, mas bem magro. Careca, apenas dois tufos de cabelos grisalhos ao lado da cabeça, sobre as orelhas. Grossas sobrancelhas da mesma cor. Bem vestido, camisa branca, gravata e calças marrons. O jaleco branco e o estetoscópio em volta do pescoço denunciavam sua profissão.
_Senhor Ricardo?
_ Pois não?
_ Salomão Carlos, médico anestesista. A seu dispor. Soube o que houve com a sua mãe. Lamentável! Mas não se preocupe, nossa equipe é bastante competente. Cuidarão bem dela.
_ O senhor tem alguma notícia dela?
_ Infelizmente não. Ouvi falar do caso e passei para oferecer minha solidariedade. Mas posso procurar mais informações e lhe mantenho informado. Passar bem.
_ O senhor também... Sujeito estranho! Pensou Ricardo enquanto andava pelo corredor que ligava a sala de espera à enfermaria, caminhando um pouco para pensar.
O corredor era bastante escuro. Não tinha janelas e as lâmpadas fluorescentes estavam desligadas. O hall da enfermaria ficava em um patamar um pouco mais elevado. O acesso era feito por uma rampa com tapete de borracha. Logo em frente, havia um balcão de informações. À esquerda, os quartos ímpares, à direita, os pares. Atrás do balcão ficava a sala das enfermeiras que, por sinal, conversavam bem alto.
_ Ué, você já vai?
_ Vou, menina. Consegui troca de folga com a Rita hoje.
“Essa voz. Eu já ouvi antes”, pensou Ricardo, revirando o fundo de sua memória. “Eu a ouvi ao telefone... ao celular... É ELA! É a Jô, ou Cybele!” E subiu a rampa a passos largos, pulou por cima do balcão e entrou na pequena sala.
_ Ricardo, Você por aqui? Que surpresa!
_ Vanderly! As mulheres da sua vida. Olha só justo onde a Vanderly foi trabalhar.
_ Tudo bem com você? Está pálido?
_ Quem estava aqui com você?
_ É minha colega, a Josilene. Ué, Pra onde ela foi?
Ricardo percebeu que ao fundo da salinha havia uma porta que dava para o corredor da ala direita da enfermaria. Ele ouviu barulho de alguém correndo e disparou atrás, deixando a Vanderly falando sozinha.
Ao chegar ao corredor, viu que a moça já se encontrava próxima à parede do fundo, pôde ver apenas que ela era morena, de cabelo curto, usava calça azul clara, uma jaqueta branca e uma bolsa marrom de veludo a tiracolo. Rapidamente, ela virou a esquerda e abriu a porta que dava acesso às escadas, com Ricardo logo atrás. “Então Jô é de Josilene”, concluía.
Eles desceram ao segundo pavimento, Ricardo tinha cerca de cinco metros de desvantagem em relação à moça. A escada dava acesso ao corredor da ala de ortopedia. Logo em frente estava a sala de raios-X, que àquela hora da manhã estava lotada de gente. Havia pessoas sentadas nos bancos de plástico laranja localizados em ambos os lados do corredor, muita gente em pé, muletas, cadeiras de rodas, mães com crianças no colo berrando sem parar e o Ricardo e a moça fugitiva tentando se desembaraçar desta confusão.
Quando Ricardo estava já nos calcanhares de Josilene, quase alcançando seu braço esquerdo, sentiu seus pés deslizarem e perdeu o equilíbrio, indo de encontro a um tripé de suporte de bisnaga de soro que auxiliava um velhinho de camisolão a receber seus medicamentos. Ricardo foi ao chão levando junto o tripé e arrancando a agulha do soro da veia daquele senhor e fazendo um bocado de barulho. Era metal contra pedra e os gritos de dor do pobre ancião. Ao se levantar viu a gosma verde com pequenas bolhas brancas como se fossem miolos de pão mergulhados no leite. Tinha escorregado numa poça de vômito.
Uma rápida desculpa ao velhinho e de volta à perseguição, agora já em direção ao primeiro pavimento. A moça já deixara a escada e passava pela triagem do setor de emergência quase na porta de entrada das ambulâncias, ela tinha agora uma grande vantagem.
O caminho até lá, porém era em declive, com rampas para acesso de deficientes físicos, o que permitiu a Ricardo apanhar uma maca com rodinhas que estava encostada na parede e percorrer a todo vapor à distância que o separava de Josilene. Não sem antes esbarrar em alguns obstáculos pelo caminho. Os cestos de lixo voaram longe. Maldita reciclagem! Primeiro foi a de papel, depois a de metais e, por fim, a de lixo orgânico. “A faxineira vai me matar. Assim que eu sair da cadeia”. Pensou Ricardo.
A maca chegou na portaria e bateu no canteiro de flores que limitava a rampa de acesso das ambulâncias. Por sorte, não havia ninguém por perto. Com a batida, Ricardo deslizou pela maca e voou por sobre o canteiro, aterrisando bem em cima da Josilene.
Finalmente pode ver seu rosto. Bonita, por volta dos vinte e cinco anos, olhos castanhos e apele bem clara. Ou melhor, pálida. O pavor era visível em seus olhos.
_ Me solta!
_ Espera! Vamos conversar, por que você fugiu de mim?
A pergunta foi respondida com uma tremenda “bolsada” no rosto que fez Ricardo ver estrelas. “Que bolsa pesada!” Quando voltou a si, Ricardo só pode ver Josilene, com a bolsa arrebentada entrar rapidamente em um Gol branco que arrancou cantando os pneus. Ainda deu para reparar que no porta-malas do carro havia um adesivo “EROS – Rent a Car”. A Loja da Gorda! Ele já havia lido em algum lugar. Ao pensar em leitura, Ricardo reparou que ao lhe atingir com a bolsa, a moça havia deixado cair na calçada algo que parecia ser um estojo de maquiagem e um livro. Já estava se abaixando para apanhá-los quando um outro par de mãos o fez antes dele.
_ O senhor?
_ Salomão Carlos, médico anestesista. Disse o homem calvo, apontando para o crachá pendurado no bolso do jaleco branco. Nos conhecemos agora há pouco. Como vai a senhora sus mãe?
_ Bem, creio eu. Ricardo hesitou um pouco. _ Obrigado... por perguntar.
_ Que satisfação em saber tão boa notícia! Bela leitura! E creio que isto deva pertencer a sua senhora. Disse o médico ao lhe entregar o livro e o estojo. _ Passar bem.
Era simpático aquele senhor! Tão sorridente e atencioso.
Morrendo de curiosidade em saber mais sobre a tal Josilene, Ricardo guardou o estojo no bolso, apanhou o livro e foi procurar a Vanderly.
Porém, sua busca foi em vão, ela desaparecera. Não estava na enfermaria, na sala das enfermeiras, na recepção nem no necrotério. Simplesmente evaporara. Cansado de tanta correria, resolveu retornar à sala de espera onde sua irmã Rosana o aguardava.
_ Ricardo, onde você se meteu?
_ Fui tomar um pouco de ar fresco lá fora.
_ Ta bom. Olha, o médico já vem vindo. A Cláudia foi levar as crianças no colégio, disse para você ligar se quiser que ela volte para cá.
“Até parece!” Pensou. E voltou ao banco do corredor, passando a folhear o livro. Era o volume dois de “The Game TheoryandEconomicModels”, A teoria dos jogos e modelos econômicos, de H. P. Nightmare, PhD. “Que leitura mais complicada para uma enfermeira”, surpreendeu-se. Mais surpreso ainda Ricardo ficou quando viu o carimbo que estava na primeira página e na lateral do livro. Aquele livro veio da biblioteca perto do banco! A mesma biblioteca onde o finado Jéferson trabalhava! O mesmo Jéferson para o qual ele deveria ter passado o recado da Cybele, ou Jô. A mesma Cybele ou Jô que acabara de fugir dele como o diabo foge da cruz ali no hospital e que carregava este livro na bolsa.
Todas estas coincidências iam e voltavam sem para dentro da mente de Ricardo, mesmo enquanto ele conversava com o médico de sua mãe, Dr. Santana. Ele só se lembrava de ter ouvido as palavras “Dona Lúcia está bem”, “ainda não sabemos a causa” e “ela terá alta amanhã”. Era o mais importante.
_ Ricardo!
_ Oi Cristina! Você veio!
_ Desculpe, só consegui chegar agora. Como ela está?
_ Bem, graças a Deus! Foi só um susto. O médico disse que já podemos vê-la. Você nos acompanha?
Dona Lúcia já conhecia a chefe de Ricardo a algum tempo, de festas e confraternizações passadas. As duas se davam muito bem. Ficaram cerca de quarenta minutos no quarto. Ela já estava bem alegre, corada e não se lembrava absolutamente de nada que acontecera.
Por volta de uma tarde, Cristina sinalizou que iria retornar ao banco e Ricardo lhe pediu uma carona.
_ Que é isso, Ricardo. Não precisa.
_ É só para apanhar uns documentos do plano de saúde, Cris.
Então eles saíram. Ficou combinado que Rosana ficaria de companhia para a mãe até a volta de Ricardo, quando então ela poderia ir até em casa tomar um banho e retornar para passar a noite.
Na verdade, os documentos do plano estavam com ele. O objetivo era ir até a biblioteca e checar quem havia emprestado aquele livro.
 
 
*
 
Depois de uma rápida passada no banco, onde fez uma hora e recebeu apoio dos colegas, seguiu a pé até a biblioteca.
O local já havia sido liberado pela polícia. Ricardo tomou assento em um dos terminais de consulta de livros e periódicos. Como o sistema era integrado, dali era possível acessar a tela de empréstimo de livros. Bastava ter a senha correta, o que para ele não era problema. Costumava invadir sistemas assim quando era estagiário, só por diversão. E bibliotecas não eram referências em termos de segurança. O Jéferson que o diga.
“Vejamos... The Game Theory... volume dois”. Foi um resultado surpreendente. Ricardo conhecia quase todo mundo que havia emprestado aquele livro. O último empréstimo havia sido a seis meses, para Cristina, sua chefe. Uma semana antes havia estado com o Chico, seu colega e, o mais impressionante... Há um ano atrás estava com a Suzi, faxineira do prédio. “Esse livro deve ser ótimo! E muito popular lá no banco”.
_ E aí, Rick, meu chapa, tudo bem? Você por aqui?
_ Oi Chico. É... Vim procurar um material pra ajudar a Laura num trabalho da escola.
_ Ah, The Game Theory! Bomlivro! Já leu?
_ Ainda não. Sobre o que é?
_ Ele faz relação entre os fenômenos econômicos, como o movimento das bolsas e a cotação do dólar aos jogos como futebol, pôquer, gamão e até xadrez, mostrando que eles podem ser previstos matematicamente. Explicou Francisco enquanto folheava o livro. _ Mas algumas páginas foram arrancadas deste aqui.
_ Ah é?
_ É, olha! As páginas 12 e 21.
_ É mesmo... 12 e 21, que coincidência, é o final do número do meu celular e do telefone da minha casa. Disse Ricardo.
_ É um palíndromo. Arrematou Francisco.
_ Como é que é?
_ É um palíndromo. Um número que é lido da mesma forma no sentido normal e de traz pra frente. 1221, de traz pra frente dá a mesma coisa.
_ Interessante...
_ Bom, de qualquer forma, é melhor você começar pelo volume um. Até mais.
_ Até...
Ricardo pesquisou no computador para ver se o primeiro volume estava emprestado. Como não estava anotou o número da prateleira e foi procurá-lo, mas o livro não estava lá. Procurou em volta e nada. “Talvez a polícia tenha recolhido”, pensou, “ou então está misturado por aí”.
 
 
 
 
Ricardo deixou a biblioteca por volta da três horas da tarde e seguiu de táxi para o hospital, onde iria render Rosana junto ao leito de sua mãe.
Antes, porém, resolveu ir até à lanchonete em frente ao hospital. Seu estômago lembrava que não comera nada o dia todo.
Já confortavelmente instalado em uma das espaçosas mesas do “Gordão Burger”, Ricardo começou a relembrar os últimos acontecimentos.
Primeiro, a ligação da misteriosa Jô. Depois, o assassinato do bibliotecário e o reaparecimento do celular. Em seguida o encontro com a moça no hospital e a fuga. Ela conhecia a Vanderly, que depois também sumiu. E a Gorda? Teria alguma coisa a ver caso? Será que foi por meio dela que se conheceram. E o livro? Como um livro da biblioteca do banco foi parar nas mãos da Jô? Coincidência?
Passou a se lembrar da conversa entre eles ao telefone. “Eu preciso que você procure o Jéferson na biblioteca e diga a ele que estávamos errados”. Errados a respeito do quê? “E diga que o nome é Cybele, com ‘y’”. Será que se referia a uma terceira pessoa?
Nesta hora, sentiu o calafrio percorrer sua espinha e percebeu que estava com medo. Com certeza lidava com pessoas perigosas. Um rapaz já havia sido morto e ele se envolvera ainda mais ao perseguir Josilene pelos corredores do hospital. E agora tinha em seu poder um livro que caíra da bolsa dela.
Suas pernas ficaram bambas, começou a suar frio. Pensava em suas filhas, em sua mãe no hospital, em sua irmã e até em Cláudia. Elas poderiam correr perigo.
Mas, ao mesmo tempo, havia uma outra sensação mais estranha. Pela primeira vez nos últimos dias a depressão não tomou conta do seu corpo e da sua mente. Ricardo se sentia revigorado, com mais energia.
Mesmo assim, decidiu que era melhor se afastar de toda esta confusão. Logo de manhã. Iria devolver o livro à biblioteca do banco.
Só uma última coisa precisava ser feita antes de dar o caso por encerrado: conversar com a Vanderly. Ricardo decidiu que iria atrás dela assim que Rosana retornasse ao hospital para passar a noite com a mãe.
Com esta determinação, pagou a conta no “Gordão” e já ia saindo quando ouviu um chamado cada vez mais familiar:
_ Senhor Ricardo! Fazendo uma bela refeição, hein?
_ Hã?

_ Salomão Carlos, medico anestesista! Nos conhecemos hoje lembra?

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publicado às 16:46

Livro Coletivo - Cap. 03

por ornitorrincoquantico, em 13.08.09

Capítulo 3: As chaves

Bruno Cochrane





 








Terça Feira, Ricardo já não sabia o que fazer quando acordou. Sua chefe, Christina, havia lhe dado um dia de folga do trabalho, pois os seus colegas repararam que ele estava com sérios problemas pessoais. Na noite anterior ela havia lhe comunicado essa notícia. A empresa estava indo bem e os computadores sem problemas, e, por um dia, o dia que Lúcia, sua mãe, ia voltar, ele poderia ter uma folga.

“Folga”. Ricardo riu quando ouviu a palavra “folga” da boca da sua chefe. Ele não tinha folga já fazia mais de um ano, quando ele começou a brigar com a Cláudia.

Eram sete horas e sua mãe estava para chegar. Nessas horas ele se lembrava do pai, que era um mediador nas brigas entre a Lúcia e a Cláudia. Sua esposa tinha admiração por seu pai e o chamava somente de Tio Paulo, pois ela tinha nele um segundo pai. Foi desde a morte dele que, talvez, Ricardo pensava, Claudia tivesse perdido totalmente a paciência com sua mãe, ocorrendo então as primeiras brigas.

- VAMOS LOGO, SUA LEZADA... A MÃE TÁ NO CARRO! – Nisso Isadora passa derrubando o pai, indo em direção a porta, deixando Ricardo preocupado com o abuso da filha de quatro anos - TCHAU, RICARDO! VEM, MÃE, MAMOS DEIXAR A LAURA AÍ...

- Isadora, não minta mais para sua irmã! Vamos, queridas, antes que a... “ela”... chegue! Tchau, Ricardo!

- Tchau, pai, te amo... Ahh! Desliga o computador para mim?

Ricardo estava sem ação. Não sabia o que falar. Ele só se lembrava da noite anterior. Do tapa, do telefonema de Christina. Da “Folga”. Ele não ia aguentar mais um dia com a mãe ou a esposa. Ele foi até o quarto sem se despedir direito da família e sentou na sua cama. Pegou sua pasta e a abriu. Pegou então os papéis da empresa. Tinha que fazer algo. Revirou mais ainda sua pasta e encontrou...

O Celular. Ele ficou estático. Ele se lembrou de que havia ignorado o pedido de socorro da quela moça chamada Cybele com Y, ou Jo”alguma coisa”, ou talvez somente Jo. Quem era a moça? E o pobre do Jéferson? Jefinho? Havia morrido por sua culpa... Seria Cybele, ou Jo, a sua namorada, que o teria matado, e fingido sua descoberta? Teria ela sido libertada e achado o namorado no dia seguinte? Seria essa moça uma das assassinas que talvês tivesse se arrependido antes da morte acontecer? E porque o seu celular? Como o haviam conseguido? Muitas perguntas.

Ricardo não conseguia esquecer do tapa na cara de Claudia. Ele então levantou-se e foi até o armário embutido do seu lado da cama. Ele parou por alguns segundos em pé, observando a maçaneta, e deixou uma lágrima escorrer do seu olho. Ele girou a maçaneta e abriu a porta, olhando diretamente para a prateleira mais ao alto. Dela ele puxou uma caixa de papelão e se sentou novamente na cama com a caixa em seu colo.

Ele estava chorando muito e dezesperado. Não aguentava mais. Ele ia abrir a caixa, mas viu escrito em letras garrafais uma mensagem numa das laterais: “USE-A BEM. SUA AMADA ESPOSA”. Ela estava com ele até nas horas que ele queria estar sozinho. Ela era como uma praga que gostava de atormentar o alvo até a destruição psicológica total. Ele já estava totalmente encharcado com suas lágrimas. A depressão finalmente o atingira.

A campainha tocou e ele foi no banheiro enxugar as lágrimas. A campainha tocou novamente quando ele estava guardando a caixa. Decidira não uza-la naquele momento. E foi então finalmente na porta principal. Era Rosâna, sua irmã.

- Oi, Rô. Como vai?

- Rickye, a mãe não pode vir hoje.

- O que houve? Ela estava bem no final de semana!

- Ela não está se sentindo muito bem. As dívidas da casa estão aumentando, e ela me disse que não conseguiu ir no banco no final de semana que esteve aquí.

- Eu não sabia do motivo! Porque ela não falou nada?

- Ela ia te pedir para ir no sábado com ela, mas ela viu que você já está cheio de problemas com sua esposa! Ela até pensou em ficar para ver ontem, mas preferiu voltar aquí hoje, para descansar da briga feia do domingo de noite, quando ela foi embora.

- Ela te contou, né..?

- Rickye, eu quero que você volte para casa!

- E as meninas...

E a conversa com a irmã demorou mais ou menos uma hora, e terminou com Ricardo levando a irmã caçula no banco. Ela, depois de avaliar a história maluca que acontecera na sexta para segunda, mandou o irmão ir falar com a Suzi, a empregada da empreza, pois era o melhor a se fazer.

E foi o que ele fez. Ele desligou o computador para a filha,  deixou a irmã no banco, um outro, pois os problemas da mãe não eram tratados pela sua agência, e chegou no escritório mais ou menos umas dez horas. Entrando na portaria social, ele cruzou com os colegas Ricardo e Fernando, colegas que não tinha uma relação forte, mas que conversava de vêz em quando. Como eles estavam numa conversa que parecia séria, ele decidiu passar direto.

- ... e então a minha esposa – Dizia Fernando – começou a me criticar, dizendo que eu não cuido bem da Dona Juliana, pois ela está doente, e, como minha sogra, eu tenho que...

Na espera para o elevador, Ricardo não sabe o que irá dizer para a Chefe, que mandara ele ficar em casa. Ela não sabia da sua culpa no caso do Jéferson, que não era pequena. Ele esperava não cruzar com Francisco nem Alexandre, pois eles poderiam fazer alguma brincadeira que acabasse fazendo com que ele se descontrolasse. Ele estava com muito medo.

- E aí, Seu Ricardo – Era Zé Fernando – Cê soube que a polícia tá afincada no caso do Assassino do Bibliotecário? Coitado do Jéferson, nem chamam mais o cara pelo nome.

Ele já não aguentava mais a situação. Subiu o elevador e se encontrou com Christina. Ele ficou mudo por um tempo e ela também. Ela queria perguntar mas não tinha coragem. Ele sabia o que ela ia perguntar, e esperou, para depois perguntar pela Suzi.

- Ricardo! O que houve agora? O que a Cláudia aprontou desta vez? Eu mandei você ficar em casa!

- Eu não conseguí! Eu tinha que vir trabalhar. Ficar em casa vai acabar me daixando pior. Vou para o meu escritório. Quando a empregada passar, você pode mandar ela limpar minha escrivaninha, pois está uma bagunça, por favor?

Ao ir para a sala dele, Ricardo passou pela sala de Andréia, onde a viu conversando com Eugênio, e se lembrou da festa do filho do Paulo. Ele fica com vergonha cada vez que se lembra. Foi mais ou menos quando a filha começou a agir estranhamente, talvez por causa da mãe, talvez por causa dos dois, talvez por causa dele. Ele até hoje agradeçe o gerente por não tê-lo demitido, a ainda mais a Christina, por ter influenciado nessa decisão.

Esperou alguns minutos na sala, até a empregada chegar.

- Suzi, esse é o seu nome, não?

- Sim, dotô Ricardo!

- Me chame de Ricardo, por favor!

- Sim Dotô!

- Tudo bem! É o seguinte. Você por acaso achou esse celular em algum lugar e o colocou na minha gaveta, que fica fechada a chave?

- Ih, Dotô, num fui eu não! Num foi o Dotô, não?

- Não, Suzi. Você por acaso emprestou suas chaves para alguém? Ou perdeu elas nas últimas semanas? Ou... Por acaso essas chaves saíram das suas mãos algum momento nesses últimos dias.

- Seu Dotô, teve um dia... só um dia... que eu fiquei preocupada, mas eu as achei no chão depois... num foi nada!

- E onde foi isso... Suzi? – Ricardo já estava ficando irritado.

- Foi na biblioteca, Dotô, foi na quinta feira.

Ricardo ficou branco. Sem reação.

Eram mais ou menos onze e meia quando ele passou no hall e perguntou para a Clara, a secretária, o nome dos visitantes que passaram por lá na última semana.

- Ricardo – ala era amiga dele também – olha... na semana passada, nós tivemos dois visitantes, um na terça e outro na... deixa eu ver... na sexta... Não... na quarta... na quarta feira... Dia seis foi quarta, e não sexta...

Ricardo então ficou mais branco ainda.

- Você tem certeza de quê ninguém alem do pessoal que trabalha aquí no escritório entrou depois da quinta?

- Nós checamos as câmeras de segurança toda segunda feira de manhã, e nós examinamos todos os dias de semana de noite, e todo o final de semana... inteirinho... É isso, ninguém mais além de nós onze. Não, doze, pois o Dr. Paulo apareceu por aquí na quinta.

Ricardo ficou pensando. Ele conhecia as pessoas que trabalhavam naquela agência bancária. Ele, o outro Ricardo, Fernando, Francisco, Alexandre, Andréia e Eugênio. Tinha também a chefe Christina e a secretária Clara, sem esquecer da empregada Suzi. E tinha também o Paulo, que trabalhava no escritório principal, mas que sempre passava nas filiais, sem esquecer do Hudson, gerente daquela agência, mas hoje parece que era seu dia de folga.

Ele estava preocupado. Por isso ele passou na biblioteca, mas estava interditada pela polícia. Ele deu umas voltas no quarteirão, mas todas as entradas estavam seladas. Ele tinha que procurar por essa tal Jo, ou Cybele, e saber qual de seus colegas estava metido no caso. Era muito esquisito, mas era possível.

Ele então pegou a irmã no banco mais ou menos meio dia, e foram para casa. Chegando, ele achou melhor que a irmã pegasse seu carro e fosse dar uma volta.

- É melhor, Rô... Minha esposa tá em casa, e eu não quero mais briga. Você viu como tava a casa? Se bobiar a empregada se encheu da gente e foi embora... Ai talvez a Claudia vá embora de vez, sem as crianças... Sonhar é bom...

- Volta pra casa, Rickye!

- A gente conversa mais tarde. Te pego às dez horas hoje de noite, ai a gente vai comer alguma coisa. Uma pizza, ou um macarrão, vai pensando. Amanhã eu arrumo um advogado para a gente resolver o problema das dívidas.

- Mano, para de se preocupar comigo... Você tem que cuidar dos próprios demônios... Vou indo, para ela não ouvir.

Ele então entra em casa e vê a esposa na cozinha lavando os pratos. Ele então coloca a pasta na cadeira, e vai falar com a esposa, mas se lembra da caixa e do recado.

- Claudia... – ela não responde – Claudia... Você não quer me responder... mas... Bom... eu quero... – nada de resposta – Vou dar uma volta.

Antes de se virar, ele vê a Claudia enxugando um dos olhos. Ele pensa que deve ser a cebola, mas sabe que não é. Ele vai até a mesa e pega sua pasta.

É uma hora mais ou menos quando o taxi o deixa na casa do sei gerente e amigo, Hudson, e consegue o enderesso da oficina da Gorda, onde então ele consegue arrumar um programa com a Vanderly.

As duas ele estava batendo na porta dela. Ela abre a porta e ele entra. Ele está chorando denovo. Ela olha para ele e sente que algo está errado. Eles se abraçam e então ela leva ele até o quarto, onde eles se deitam e ele desabafa sobre a esposa.

Ela vê que ele precisa de algo mais do quê desabafar e o ajuda a esquecer da esposa, fazendo então amor com ele de um modo que ele não tinha como pensar em outra coisa. Ele, durante um bom tempo, pôde esquecer de tudo o que estava acontecendo naquela última semana, ou do quê estava acontecendo naquele último ano, ou até um tempo maior.

Ele pôde relaxar.

 

O sol estava morrendo e ele não conseguia voltar para casa. Ele estava no lugar que sempre ia quando criança, para fugir das brigas e dos problemas de casa. Ele chamava aquele mirante de “Mundinho”. Era num morro, e muito pouca gente ia lá. Ele sempre que estava lá se senntia mais calmo, mas ele só fazia chorar. Ele não aguentava mais aquela situção. Ele precisava levar as filhas e a esposa para um analista. E ele também deveria ir. Logo! Mas agora ele estava com problemas em casa, no trabalho, e morria de medo da polícia, que podia bater à sua porta a qualquer momento.

Uma lua laranja gigantesca nascia no horizonte. Naquela primeira hora de luar a lua era sempre maior do que durante a noite. E ele se lembrava dela, da Claudia e ele, das noites de amor que eles tiveram naquele mirante. De lá ele podia ver seu bairro. Só estava ele lá. E ele queria ficar por mais um tempo, até cansar de não fazer nada.

Vanderly era realmente uma boa garota, mas não era quem ele amava. Ela amava realmente a Claudia, quem ele não podia... não queria... de jeito nenhum, abandonar.  Claudia fora seu primeiro e único amor. As meninas sempre foram boas, mas alguma coisa realmente estava acontecendo.

Tudo estava se estragando ao mesmo tempo. Seu casamento estava acabando. Seu trabalho não dava mais prazer. Sua mãe estava envelhecendo e ficando cada vez mais irritante. E agora essa Cybele. Ou Jo.

Eles estavam todos eclodindo ao mesmo tempo, como num efeito dominó, rumando para um caos definitivo que preocupava internamente Ricardo. Ele talvez cedesse à vontade que o atormentava. Tudo de ruim estava acontecendo e parecia que nada de bom poderia sobrepor à tudo.

Ele ficara por um bom tempo tentando esquecer de tudo.

 

Já era quase meia noite quando ele estava se despedindo da sua irmã para poder ir para casa e no dia seguinte voltar a se preocupar com sua vida. Deixou ela no seu hotel e foi para casa no seu carro.

Seu quarto estava trancado, Isadora estava dormindo e Laura ainda estava no computador, com sua cabeça deitada sobre o teclado, com uma olheira quase chegando na bochecha.

Ricardo desligou a máquina e colocou a menina na cama. Tudo estava calmo agora. Ele beijou a menina e depois beijou Isadora, que se mexeu na hora. Ele foi embora do quarto e se cobriu no sofá. Deitou a cabeça e se lembrou do dia anterior.

 

Quarta Feira

 

Ricardo foi acordado pela Claudia, com uma cara de ódio.

- Porra, Ricardo, você não ouve o telefone, não? É sua irmã, ela está dizendo que é muito importante... Saco... você sabe que horas são?

Ele olha no relógio

- Rô? São cinco da manhã! O que quê houve?

- Ricardo... é a mãe, me ligaram lá de casa...

- O quê aconteceu?

Do outro lado da linha, Rozana estava chorando...

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publicado às 20:38

Livro Coletivo - Cap. 02

por ornitorrincoquantico, em 06.08.09

Autora: Nadja Prado


Ricardo por alguns minutos ficou perplexo pelo que acabara de ouvir.Passou a mão sobre a testa e percebeu que estava suando frio.

 

Aquela notícia tinha acertado bem no fundo do seu estômago, e em questão de segundos, tudo passou pela sua mente - o telefonema da noite anterior, a voz de uma mulher desesperada, e o próprio Jeferson.Um bom rapaz, franzino, moreno,voz de locutor.Tinha pouco mais de vinte e dois anos... Trabalhava, há dois anos, na biblioteca.Durante esse tempo ganhou a amizade de muitos colegas devido a sua simplicidade e seu esforço em cuidar de sua família. Era ele que levava o pão para a casa. Tinha mais duas irmãs menores e uma mãe doente.Era órfão de pai e talvez por isso buscava a atenção de pessoas mais velhas.Seu sonho era ser um ator famoso! Era um dos melhores da Escola de Teatro.

 

Ricardo estava inconsolável. Não tinha muito papo com o garoto, mas o admirava e sempre que podia citava-o para seus amigos. Ninguém tinha ânimo para mais nada. As mulheres cochichavam entre si para tentar decifrar aquela morte estúpida e violenta. Os homens um tanto apáticos com o acontecimento, tentavam elucidar o caso concluindo o seguinte:

 

- Eu falei...esse garoto era esquisito! Vai saber o que ele aprontou! – exclamava Fernando, um dos funcionários do banco.

- Não é bem assim...a violência tá rolando por aí. Hoje foi ele e amanhã? – perguntou Ricardo, um tanto apreensivo.

- Amanhã? Quer saber! Dane-se! Tô cheio de problemas e ainda por cima sobrou pra eu cuidar da sogra doente! A polícia é que resolva, são pagos pra isso! –disse em tom sarcástico a Ricardo e dirigiu-se para a sua mesa.

 

Fernando era assim mesmo.Embora, fosse um homem charmoso, elegante e bom de conversa, era extremamente frio, talvez, por ser mais um dos muitos narcisistas que habitam em nosso planeta.

 

Fora um dia melancólico.Ricardo pouco falou e o pouco que conseguia ouvir, nada entendia... Sua mente vagava e ele desesperadamente tentava encaixar aquele quebra-cabeça! A ligação, a voz desconhecida, o pedido, o uso de seu celular... Sua gaveta  estava trancada quando ele deixou o trabalho um dia antes do crime.Como puderam usá-lo? Somente a empregada, Susi, tinha as cópias.

De repente volta ao mundo real. É despertado por um de seus colegas, o Alexandre:

 

- O que você acha de tomarmos um chopinho? O dia aqui foi terrível! Eu não esperava por esta!

- Obrigado cara! Mas não tô com cabeça pra isso.Apesar de não ter tido muito contato com o Jeferson, sabia que ele era gente fina! E a família dele? Alguém foi até a casa oferecer ajuda? Sei lá...a família deve estar arrasada!

-O pessoal da biblioteca e do teatro certamente já devem ter feito isso.O rapaz morava longe, num lugar de dar medo até em bandido! Puta merda! Acho que acordava na madrugada pra chegar aqui.Coitado!

- Alexandre, tenho que ir pra casa. A minha mãe está chegando e eu preciso ajeitar algumas coisas por lá. Sabe como é? Ela e a Claudia não se combinam! As duas juntas serão uma explosão maior do que a bomba de Hiroshima!

- Que cruz você carrega, hein? Tô fora desse angu! Vou convidar alguém que esteja com menos pepinos do que você!

- Vá sim, Alexandre! Eu estou péssimo e não serei uma boa companhia nem ao menos pra uma barata...

 

A fisionomia de Ricardo mostrava claramente os seus sentimentos naquele momento.Ajeitando seu paletó, dirigiu-se até a sua mesa, ajeitou papéis, abriu a sua gaveta e apanhou o celular. Por algum momento sentiu necessidade de falar com alguém sobre a ligação que recebeu, mas titubeia e volta atrás.O silêncio o pouparia de perguntas, interrogatórios policiais e a fúria de sua esposa, a inconseqüente Claudia. Não valia a pena. Sua vida já estava uma droga!

    

Quando chegou em casa, percebeu que no trajeto inteiro estivera desligado do mundo.

Não sabe como não cometeu um acidente.Tudo o intrigava. Mal entrou em sua casa deparou com uma cena um tanto assustadora.Outro crime? Não! A casa estava completamente virada de pernas para o ar!  Os pratos sujos da noite anterior ainda estavam sobre a mesa. Pipocas, papéis, pedaços de bolachas espalhados pelo chão, sem contar, o nojo que estava a cozinha. Nada havia sido arrumado! Parecia até que um exército havia passado por ali e destruído tudo! Laura, a filha de Ricardo, estava como sempre computador acompanhada com uma pacote de doces..

- Filha!  Que aconteceu por aqui? - perguntou Ricardo.

- Paaaaiiiiiiii!!! - gritou ela alegremente.

- Laurinha!  Desse jeito você vai me lambuzar de doce...mas não tem importância! Um abraço desse vale mais do que todos os paletós do mundo!  Te amo, viu?!

- Pai, a mamãe ficou deitada o dia inteiro...

- Por quê?  Ela tá doente?

- Acho que sim! Ela falou pra mim que tá com muita dor na cabeça.A Isa tá com ela no quarto.Eu cansei de ficar lá!

- Tá bom, Laurinha!  Agora deixa o papai tirar essa roupa, tomar um banho e tentar ver se tem alguma coisa nessa cozinha pra comer, eu não sou de ferro...

 

Mas para viver naquela casa precisa ser de ferro. As coisas não fluíam bem.Nada dava certo. O clima estava pesado.Não havia paz. Não havia amor e muito menos diálogo. As tentativas eram em vão. Quando ambos se falavam, tudo partia para o lado pessoal, diálogos recheados de rancor, ódio e palavrões. Certa vez, em uma das muitas discussões, Claudia, atirou a tv da sala no chão! Acabou cortando levemente um de seus pés e assustando as meninas.Depois de alguns dias, Ricardo, acabou comprando outro aparelho.Um banho morno era a única coisa relaxante a se fazer naquele instante.

 

Dirigindo-se ao banheiro, Ricardo deu de cara com Claudia, que saía do seu quarto. Deus! Ela estava horrível!  Já não era aquela morena de lábios carnudos que ele havia conhecido há tempos atrás. Ainda tinha um belo corpo, mas a beleza anterior já tinha se apagado. Seus olhos verdes continuavam belos, embora, não representassem mais nada para Ricardo.Ajeitando os seus cabelos, Claudia, perguntou-lhe:

 

- Se eu estivesse morta no quarto, você não daria a mínima, não é?

- Não entendi... – disse ele perturbado.

- Já faz um tempão que você chegou e nem ao menos foi me ver. Escutei muito bem o que a Laurinha disse a meu respeito! O dia inteiro minha cabeça parecia que ia explodir de tanta dor!

- Você já teve essas dores antes.Tomou algum analgésico?

- O que importa? Se tomei, se não tomei ou se morri! A empregada não veio pra limpar tudo isso aqui.Ligou dizendo que seu filho está doente...Ah! Amanhã preciso fazer umas comprinhas.Algo básico.Um tapete maior, novas cortinas,quero deixar a casa impecável pra chata de sua mãe não ter o que reclamar! 

- Claudia, já te falei, agora não posso gastar mais! Estamos até o pescoço com dívidas! Você detona todos os cartões de crédito! Compra o que não deve, sem falar no seu troca-troca de móveis... Ponha a mão na sua consciência! Desse jeito,acho melhor você procurar um emprego para satisfazer o seu luxo.Quem sabe sua vida melhora e me deixa em paz-grita Ricardo.

 

Inesperadamente, Claudia esbofeteia Ricardo.

 

Ele sem pensar revida imediatamente. Ela fica paralisada. Seus olhos fixam-se nos olhos de Ricardo. É um olhar gélido que penetra no fundo da alma. Ricardo entra no banheiro e desata a chorar silemciosamente.

 

 

Agora, tudo voltava a sua mente! A última vez que havia chorado foi no enterro de seu pai.Era um bom homem.Companheiro, calmo e extremamente amoroso com a família.Já faziam muitos anos que ele havia morrido.Mas seu exemplo de vida continuava gravado na mente dele.Ele tinha apenas uma irmã mais nova, Rosana.

Ricardo nunca havia agredido fisicamente sua esposa. Apesar dela, por várias vezes, ofendê-lo profundamente, Ricardo sempre se mantivera equilibrado. Porém, os últimos fatos haviam perturbado sua mente.Ele já não sabia o que dizer ou o que fazer.Havia perdido o controle da situação há muito tempo.

 

Teve vontade de morrer. Seria melhor para todos.

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publicado às 21:33

Livro Coletivo - Cap. 01

por ornitorrincoquantico, em 04.08.09

 

Em 2003 eu criei um grupo no Yahoo dedicado a pessoas que gostam de escrever mas que não tinham muito tempo para escrever um livro. O grupo chamava-se Livro Coletivo e a partir de um primeiro capítulo que eu escrevi os demais integrantes dariam prosseguimento à história, escrevendo os demais capítulos.


Deu super certo e conseguimos chegar ao sétimo capítulo. A ideia era ter 10 capítulos, sendo que o último seria de minha responsabilidade. Mas, infelizmente, a história parou no sétimo capítulo. E era uma história de suspense, até hoje não sabemos o que aconteceu com a história. Um rapaz ficou de escrever mais um capítulo mas até hoje não me mandou nada.


Por isso vou começar a publicar os capítulos escritos aqui no meu blog, se por acaso você gostar da história e tiver interesse em participar, me avise. A ideia era terminar a história e futuramente publicar o livro. Se você se interessar me mande um e-mail para: rubaopassos@yahoo.com.br.


E fiquem agora com o primeiro capítulo da história:

 

Capítulo 01

 

Um telefonema

 

Rubens Torres

 

 

-         ...e o Ricardo só dorme!

Ricardo estava tão distraído olhando para o seu copo de cerveja e pensando nos seus problemas que nem prestava atenção no que seus amigos falavam. Ele era Analista de Sistemas em um banco na cidade e todos ali eram colegas seus de trabalho. Toda sexta ele, a Cristina, sua chefe, o Alexandre e Francisco, se reuniam e iam para algum boteco beber e tentar relaxar do estresse em que viviam.

Mas desta vez Ricardo estava mais aéreo do que nunca, principalmente porque o seu casamento estava por um fio. Claudia, sua esposa, era uma mulher de temperamento explosivo e, para ela, qualquer coisa já era motivo de discussão. Suas discussões eram cada vez mais constantes e as maiores vítimas eram suas duas filhas, Isadora, de quatro anos, e Laura, de oito, que assistiam a todas as brigas. O comportamento das duas estava muito mudado, Laura se tornou uma menina muito tímida e tinha medo de todos, chegou a ficar cinco meses sem falar com ninguém. Já Isadora estava muito rebelde, não respeitava mais os pais, principalmente o pai, o qual sempre destratava. Ricardo queria se separar, mas ele nunca fora um homem de atitude, temia que o comportamento das meninas piorasse caso houvesse a separação, e, principalmente, temia o que a esposa poderia fazer para as meninas com a guarda delas.

-         Ricardo – perguntou Cristina – você está preocupado por causa da Claudia, não é?

-         E eu penso em outra coisa.

-         Olha cara, eu já te falei, dá um pé na bunda dela e vai viver com a Vanderly – disse Alexandre com escárnio.

-         Brincadeira mais sem graça - Ricardo fechou a cara depois do comentário do amigo, principalmente por se lembrar do que fizera na última semana. Depois de uma discussão feia que teve com a Claudia dentro do banco, Hudson, um dos gerentes, chamou-o para um canto e convenceu-o de que precisava relaxar um pouco e o levou a uma das famosas festas promovidas pela Gorda. Essa mulher era dona de uma loja de aluguel de carros e promovia, às escondidas, agenciamento de garotas para homens da sociedade. Nesse dia Ricardo só quis saber de encher a cara e se divertir, participando de algo que ele nunca havia feito na vida. Nessa festa ele acabou encontrando Vanderly, uma amiga antiga sua e que era enfermeira. Ele não acreditou na hora que ela participava de algo como aquilo e ela disse que fazia isso por que gostava, porque lhe dava prazer, e os dois fizeram amor ali mesmo, na frente de todos. Depois disso, Ricardo nem pensou em voltar para casa e amanheceu na porta do banco, arrependido do que tinha feito. Chorava feito criança e se não fosse a ajuda dos amigos poderia até ter feito uma besteira. Quando voltou a noite para casa disse para Claudia que havia dormido na casa do Alexandre, o que ela não acreditou nem um pouco.

-         Desculpa, mas, falando sério, larga dela. Vai ser o melhor para você, para ela e para as crianças.

-         E não fica com medo por causa das crianças e nem fica adiando por causa delas – aconselhou Cristina – você só precisa continuar presente na vida delas. O que não pode é vocês continuarem brigando na frente delas. Eu já te falei, elas não estão normais, elas precisam de um acompanhamento psicológico.

-         E urgente – disse Francisco – principalmente aquela mais nova. Ricardo, me desculpa, mas aquela menina é um capeta. Deus me livre, naquela festa do filho do Paulo ela quase pôs a casa a baixo. Espancou duas crianças, quebrou uns três bibelôs, arrancou o mouse do computador e tacou na privada, quebrou uma cadeira, xingou o filho do Paulo e ainda disse para ele que só porque ele era filho de um gerente ele não podia mandar nela. Se fosse filha minha eu tinha matado ali mesmo.

-         Se toca, Chico, se toca...

-         Eu gosto dela, acho que ela não gosta é dos gerentes do banco. Eu ri tanto depois que ela ouviu a Andréia contar que se banhava com arruda e aí ela encheu um copo com água e tacou nela, a mulher parecia uma galinha cacarejando. E com o Eugênio, então? Ele contou para ela que ia ter um filho, e ela estranhou que ele fosse casado porque era muito feio – Alexandre nem desconfiava o quanto estava constrangendo o Ricardo.

-         Ricardo, e o seu celular? Você não está usando mais? Parece que eu não vi você com ele essa semana – perguntou Cristina, tentando mudar de assunto.

-         Não, você sabe que eu acho que perdi.

-         Perdeu? Como assim perdeu? Foi roubado?

-         Não sei, procurei lá em casa, no banco, mas nada. Eu ligo dá fora de área.

-         E você já avisou a operadora, já mandou bloqueá-lo?

-         Não, porque eu acho que foi a Claudia quem escondeu e não quer me falar. Acho que ela deve estar procurando algum telefone ou mensagem arquivada, ou deve estar esperando uma amante ligar para ter motivo para me matar.

-         Nossa, tô me lembrando agora, você disse que a sua mãe vai passar o fim de semana na sua casa, não é? Ela chega amanhã?

-         Nem me lembra, Chico, porque o inferno vai começar! Agora vou ter que agüentar minha mãe e a patroa discutindo durante dois dias...

-         Amigo, eu não queria ser você.

Eles continuaram conversando durante mais um bom tempo até que todos se despediram e foram para casa. Ricardo tinha calafrios só de pensar em voltar para casa e ter que encontrar a esposa com umas vinte pedras, no mínimo, na mão. Ele sempre se perguntava onde que o casamento dos dois tinha dado errado, eles se davam tão bem no começo. Ele não se esquecia do bilhete que ela lhe havia mandado, quando se conheceram na auto escola, onde ela dizia estar apaixonada pelos seus olhos verdes e cabelos castanhos e que ele tinha a voz mais linda do mundo. Até aquele momento ele nem tinha notado a existência dela, mas quando ele viu aquela morena linda de lábios carnudos, não resistiu e começaram a namorar. Do namoro ao casamento foram só seis meses. A mãe dele sempre foi contra o casamento, porque o santo das duas nunca se bateram. Mas eles estavam apaixonados e se casaram. “E agora, o que eu fiz da minha vida”.

Mal estacionou o carro e a Claudia já apareceu xingando a mãe dele.

-         Olha, já te disse que eu não quero aquela jabiraca na minha casa.

-         Ela é minha mãe e você para de reclamar. Destrata a minha mãe para você ver.

-         Para eu ver o que? Eu quero ver onde vai aparecer um homem para me peitar.

-         Me deixa, não quero saber de brigas.

Ela continuou resmungando enquanto ele se preparava para tomar banho. Todo dia era assim, ela reclamava da vida e ele fazia de conta que não escutava.

Ele foi até o quarto da Laura dar um beijo nela. A menina estava no computador, passava quase que o dia todo na frente dele, só saia para ir à escola de manhã.

-         E aí, minha filha, como foi o seu dia.

-         Bem.

-         E sua irmã, cadê?

-         Acho que tá lá fora, não sei.

Ele deu uma olhada pela janela e viu a menina no quintal colocando prendedores de roupa no rabo do Ticó, o gato, e do Albert, o pincher da menina.

-         Isadora, pára com isso, é judiação, eles podem te machucar.

A menina nem prestava atenção, só ria da estripulia.

 

Na hora do jantar só Ricardo e Laura ficavam na mesa, Claudia e Isadora ficavam na sala vendo novela. Era o único momento de paz e silêncio na casa. Quando terminava, Ricardo já recolhia a louça para lavar, evitando assim mais um motivo para discussão.

A novela era um calmante para Claudia, ela não pensava e falava nada enquanto assistia a TV, Ricardo aproveitava para dormir um pouco.

Mas era só a novela acabar que o tornado recomeçava.

-         Isadora, amanhã quando a tua vó tiver aqui dá um chute na canela dela por mim, por favor.

-         Claudia, pára de falar besteiras para a menina – gritou Ricardo que saía do quarto e assumia seu lugar no sofá para ver TV.

-         Ah, vai dar... Deixa eu ir arrumar o quarto pra veia, fazê o quê.

Ricardo procurava por um filme para assistir enquanto a Isadora ficava no chão desenhando. Quando ele encontrou e começou a se interessar pelo filme, a menina começou a mudar de canal apertando os botões da TV.

-         Pára com isso, garota. Que saco, me dá sossego.

-         Uhhmm – mostrou a língua para ele e saiu correndo para o quarto.

Ricardo respirava fundo e pedia paciência. Tentou se concentrar no filme. De vez em quando a esposa rogava uma praga qualquer do quarto, que ele nem dava bola.

Já era quase 11 horas quando o telefone tocou. Ricardo viu que ele não estava na base e não conseguia encontra-lo por ali.

-         Claudia, onde está o telefone?

-         Eu sei lá, procura aí, taí na sala.

Ele revirou as almofadas todas e encontrou o telefone jogado dentro do cesto de revistas. Quando ele foi atender Isadora entrou na sala, aumentou o volume da TV no último e saiu correndo. Ele xingou a garota e foi um custo pegar o controle da TV para baixar o volume.

-         Desculpa, alô, quem é?

-         Pelo amor de Deus eu não sei quem é você mas, por favor, me ajuda – pelo tom da voz percebia-se que era uma mulher desesperada.

-         Como é? Quem é que tá falando?

-         Olha, eu não tenho tempo, eu preciso que você me ajude.

-         Ajudar com o quê? Eu te conheço?

-         Não, graças a Deus encontrei um celular aqui esquecido e encontrei seu número nele. Te liguei por que eu preciso que alguém me ajude, é caso de vida ou morte. Estou desesperada, o tempo está acabando.

-         Como assim, me diz seu nome.

-         Eu preciso que você procure o Jéferson da biblioteca, e diga a ele que estávamos errados, não era nada daquilo. Ah, e diz para ele que o nome é Cybele com y, por favor.

-         Quem é Ricardo? – perguntou a esposa que já estava na sala.

-         Jéferson, que Jéferson, você tá maluca? Não conheço nenhum Jéferson? Que brincadeira é essa? E Cybele? É você?

-         Não moço, não é brincadeira, só o senhor pode ajudar a gente. Tem gente que pode morrer se ninguém fizer nada.

-         É trote, não é? Diz pelo menos quem você é? Se tem gente que pode morrer chama a polícia.

-         Não, polícia não, nunca, seria pior. Eu só preciso que você encontre o Jéferson e dá o recado a ele, por favor. Todo mundo conhece ele, é só perguntar pelo Jefinho da biblioteca, do teatro. O meu nome é Jo... meu Deus, tenho que desligar, ele tá entrando aqui, por favor, por tudo o que há de mais sagrado, me ajuda.

-         Alô, alô, quem chegou? Alô. Desligou.

-         Quem era?

-         Sei lá, uma mulher que disse que achou meu número em um celular e que está passando por dificuldades, pode morrer, sei lá. Me disse que era para eu dar um recado para um tal de Jéferson da biblioteca. Ela estava aflita.

-         Ê eh, que coisa esquisita? Olha na bina, vê qual o número, pode ser trote daqueles seus amigos idiotas. Deixa eu ver.

Ela foi até a base conferir.

-         E então, qual é o número?

-         Que isso, é o número do seu celular...

-         Como é que é?

-         Não te falei que tinham te roubado, e você ainda desconfiava de mim. Aposto que perdeu num puteiro e essa é uma puta te procurando.

-         Não pode ser, droga, eu devia ter ligado na operadora.

-         Você é um bundão. Sabe quem é que te ligou? É bandido, e amanhã eles vão tá aqui nos roubando e matando. Tomara que eles acertem uma bala no meio da tua testa, desgraçado. – saiu bufando para o quarto.

-         E o que é que eu faço, procuro esse tal de Jéferson?

-         Larga de sê viado, será que você é burro. Amanhã eu nem quero tá aqui. Vou levar as meninas para bem longe e só volto depois para dar entrevista para TV, falando da tua morte e da veia. Nossa, é mesmo, tomara que eles estrupem e fatiem a veia.

Ricardo ainda ficou um tempo pensando, mas achou melhor não fazer nada. Realmente, isso tudo era loucura. No sábado já nem se lembrava do fato, principalmente depois da chegada da mãe. A Claudia não saiu como havia prometido, ficou para poder discutir com a sogra. “As duas deviam sentir prazer em brigar” pensava Ricardo.

 

Segunda-feira

 

Ricardo chegou no banco, como de costume, e foi tomar seu café com os colegas. Estava feliz porque o inferno já havia terminado, e sua mãe já tinha ido embora. Os dois dias não foram fáceis, mas saiu com a mãe o máximo de tempo possível, para evitar o clima de casa. E agora já era segunda, mais uma semana para viver, quem sabe não seria a melhor semana de sua vida?

Logo ele se sentou na sua mesa e ligou o computador. Iria trabalhar, pelo menos no trabalho era feliz, apesar do estresse dos colegas e dos clientes do banco. Pegou sua chave e abriu a gaveta de sua mesa. E qual não foi o susto ao encontrar, dentro da gaveta, que estava trancada, o seu celular.

Ele gelou na hora. Como o celular dele poderia estar ali se na sexta ele mesmo fechou a gaveta e não estava lá. E a moça que havia ligado para ele, de onde ela havia ligado. Será que alguém do banco tinha pegado seu celular? “Mas não é possível, só eu tenho essa chave e as chaves reservas ficam com a Susi, a empregada, e ela nunca teria entregado a minha chave para ninguém, muito menos ela teria feito ou compartilhado de uma brincadeira como essa ela é muito séria. O que eu faço?”

Ele começou a olhar a todos os colegas. Não sabia a quem perguntar, não conseguia entender o que tinha acontecido.

Resolveu, por fim, descobrir se o que aquela moça havia lhe falado era verdade. Resolveu procurar o tal de Jefinho, a biblioteca ficava ali perto mesmo, quem sabe esse Jefinho não fazia parte da brincadeira que os colegas estavam armando. O único jeito era morder a isca, porque eles deviam estar tentando animar o seu astral.

-         Cristina, eu vou ter que dar uma saída rápida, já já eu volto, tá?

-         Tudo bem – ela estava ajeitando uma papelada na sua mesa e passando instruções para um dos atendentes, o Zé Fernandes – mas onde você vai.

-         Eu vou na biblioteca, preciso ver se tem um livro que a Laura me pediu.

-         Olha, eu sinto muito, mas acho que não vai adiantar nada você ir lá. Quando eu passei na frente da biblioteca vi que as portas estavam fechadas.

-         Mas por que?

-         Não sei, ouvi dizer que era por luto, mas não sei quem morreu. Zé, você ficou sabendo?

-         Claro, não se fala em outra coisa na cidade, vocês não ouviram no rádio? Um dos funcionários da biblioteca foi encontrado morto pela namorada ontem de manhã. Foi um assassinato horrível, deram trocentas machadadas no coitado.

-         E quem era esse funcionário – perguntou Ricardo, já temendo a resposta.

-         Era o Jéferson, o Jefinho da biblioteca, acho que você o conhece, era um moreninho que fazia teatro.

-         Não, eu não me lembro – e se sentou, branco como cera, na sua cadeira.

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publicado às 17:25


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