Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Livro Coletivo - Cap. 4

por ornitorrincoquantico, em 19.08.09

 

Capítulo 04
Um Dia no Hospital
 
Por Giuliano Mendonça
 
 
 
 
_ Ambulância chegando! Vamos abrir caminho aí pessoal!
_ Maca, rápido! Rápido gente!
No instante seguinte, a Caravan da prefeitura invadia com estardalhaço o pátio da emergência do hospital São Pedro e São Paulo.
_ Ro!
_ Graças a Deus você está aqui! Que coisa horrível! Horrível! Ela estava bem na minha frente assistindo televisão e, de repente, caiu no chão e começou a se contorcer... a ter convulsões... a língua enrolada... achei que ela fosse morrer ali na minha frente. Graças a Deus conseguimos esta ambulância para trazê-la.
_ Como ela está?
_ Ela foi medicada no caminho. O dr. Santana disse que ela está estável, fora de perigo por enquanto. Mas eles precisarão fazer mais exames pra tentar achar a causa.
_ Mãe? Fala comigo mãe!
_ Agora não dá, Rick. Ela está sedada. Temos que esperar eles terminarem.
 
 
 
 
Purgatório... Eis uma boa comparação para sala de espera de hospital.
Ambiente absolutamente frio. Limpo. Não, mais do que limpo, estéril. Como se o mundo tivesse parado para aquelas pessoas que lá estão. Não importam o tempo lá fora, os problemas lá de fora, a vida lá fora. Só existe a espera. Espera em saber como se dará a transição que é esperada. Se o ente querido vai se curar ou vai piorar. Se os bebês vão nascer com saúde, se é menino ou menina. Ninguém pensa nem fala nada que não esteja relacionado com aquilo que é o motivo da espera. Contam-se histórias sobre aquelas pessoas, amigos relatam experiências parecidas que um dia já viveram, na tentativa de levar conforto e mostrar que isso pode acontecer com qualquer um. Dizem que antes de morrer a vida de uma pessoa passa por diante dos seus olhos. Na verdade, a vida dela também passa por diante dos olhos dos outros, que estão lá na sala de espera do hospital. E quem inventou a sala de espera fez um excelente trabalho. Um corredor branco, com um banquinho desconfortável e um relógio de parede. Ideal para dar a sensação de que aquilo não vai acabar nunca.
Lá estavam Ricardo, sua irmã Rosana e Cláudia, sua esposa, que por algum motivo ignorado insistiu em acompanhá-lo ao hospital. Estavam os três sentados lado a lado. Sem agressões e sem insultos, mas também sem amor, carinho ou um pingo de calor humano.
_ Cláudia... Você pode ir embora. Não adianta você ficar aqui igual urubu na carniça, ainda não vai ser hoje que você vai ter o prazer de ver minha mãe num caixão. Eu me viro sozinho por aqui. Alfinetou Ricardo, sem saber exatamente por quê.
_ Escuta aqui Ricardo... Cláudia preparou o revide. _ Deixa pra lá. E, para sua surpresa, desistiu dele. _ Depois a gente conversa.
Claro. A conversa sempre fica pra depois, pensou Ricardo. E ao pensar em conversa, se lembrou que já passava das oito da manhã e era melhor ligar para a Cristina e avisar que ia se atrasar pro trabalho.
_ Puxa, Ricardo. Sua mãe? Que coisa! Você precisa de alguma coisa? Eu vou até aí!
_ Não, Cristina. Não precisa. Acho que já está tudo sobre controle.
_ Chego num minuto. Aí a gente se fala.
Sua mãe, sua irmã, sua mulher e agora, sua chefe. “As mulheres da minha vida”, pensou Ricardo.
De repente, percebeu ao seu lado um homem alto, devia ter uns dois metros, mas bem magro. Careca, apenas dois tufos de cabelos grisalhos ao lado da cabeça, sobre as orelhas. Grossas sobrancelhas da mesma cor. Bem vestido, camisa branca, gravata e calças marrons. O jaleco branco e o estetoscópio em volta do pescoço denunciavam sua profissão.
_Senhor Ricardo?
_ Pois não?
_ Salomão Carlos, médico anestesista. A seu dispor. Soube o que houve com a sua mãe. Lamentável! Mas não se preocupe, nossa equipe é bastante competente. Cuidarão bem dela.
_ O senhor tem alguma notícia dela?
_ Infelizmente não. Ouvi falar do caso e passei para oferecer minha solidariedade. Mas posso procurar mais informações e lhe mantenho informado. Passar bem.
_ O senhor também... Sujeito estranho! Pensou Ricardo enquanto andava pelo corredor que ligava a sala de espera à enfermaria, caminhando um pouco para pensar.
O corredor era bastante escuro. Não tinha janelas e as lâmpadas fluorescentes estavam desligadas. O hall da enfermaria ficava em um patamar um pouco mais elevado. O acesso era feito por uma rampa com tapete de borracha. Logo em frente, havia um balcão de informações. À esquerda, os quartos ímpares, à direita, os pares. Atrás do balcão ficava a sala das enfermeiras que, por sinal, conversavam bem alto.
_ Ué, você já vai?
_ Vou, menina. Consegui troca de folga com a Rita hoje.
“Essa voz. Eu já ouvi antes”, pensou Ricardo, revirando o fundo de sua memória. “Eu a ouvi ao telefone... ao celular... É ELA! É a Jô, ou Cybele!” E subiu a rampa a passos largos, pulou por cima do balcão e entrou na pequena sala.
_ Ricardo, Você por aqui? Que surpresa!
_ Vanderly! As mulheres da sua vida. Olha só justo onde a Vanderly foi trabalhar.
_ Tudo bem com você? Está pálido?
_ Quem estava aqui com você?
_ É minha colega, a Josilene. Ué, Pra onde ela foi?
Ricardo percebeu que ao fundo da salinha havia uma porta que dava para o corredor da ala direita da enfermaria. Ele ouviu barulho de alguém correndo e disparou atrás, deixando a Vanderly falando sozinha.
Ao chegar ao corredor, viu que a moça já se encontrava próxima à parede do fundo, pôde ver apenas que ela era morena, de cabelo curto, usava calça azul clara, uma jaqueta branca e uma bolsa marrom de veludo a tiracolo. Rapidamente, ela virou a esquerda e abriu a porta que dava acesso às escadas, com Ricardo logo atrás. “Então Jô é de Josilene”, concluía.
Eles desceram ao segundo pavimento, Ricardo tinha cerca de cinco metros de desvantagem em relação à moça. A escada dava acesso ao corredor da ala de ortopedia. Logo em frente estava a sala de raios-X, que àquela hora da manhã estava lotada de gente. Havia pessoas sentadas nos bancos de plástico laranja localizados em ambos os lados do corredor, muita gente em pé, muletas, cadeiras de rodas, mães com crianças no colo berrando sem parar e o Ricardo e a moça fugitiva tentando se desembaraçar desta confusão.
Quando Ricardo estava já nos calcanhares de Josilene, quase alcançando seu braço esquerdo, sentiu seus pés deslizarem e perdeu o equilíbrio, indo de encontro a um tripé de suporte de bisnaga de soro que auxiliava um velhinho de camisolão a receber seus medicamentos. Ricardo foi ao chão levando junto o tripé e arrancando a agulha do soro da veia daquele senhor e fazendo um bocado de barulho. Era metal contra pedra e os gritos de dor do pobre ancião. Ao se levantar viu a gosma verde com pequenas bolhas brancas como se fossem miolos de pão mergulhados no leite. Tinha escorregado numa poça de vômito.
Uma rápida desculpa ao velhinho e de volta à perseguição, agora já em direção ao primeiro pavimento. A moça já deixara a escada e passava pela triagem do setor de emergência quase na porta de entrada das ambulâncias, ela tinha agora uma grande vantagem.
O caminho até lá, porém era em declive, com rampas para acesso de deficientes físicos, o que permitiu a Ricardo apanhar uma maca com rodinhas que estava encostada na parede e percorrer a todo vapor à distância que o separava de Josilene. Não sem antes esbarrar em alguns obstáculos pelo caminho. Os cestos de lixo voaram longe. Maldita reciclagem! Primeiro foi a de papel, depois a de metais e, por fim, a de lixo orgânico. “A faxineira vai me matar. Assim que eu sair da cadeia”. Pensou Ricardo.
A maca chegou na portaria e bateu no canteiro de flores que limitava a rampa de acesso das ambulâncias. Por sorte, não havia ninguém por perto. Com a batida, Ricardo deslizou pela maca e voou por sobre o canteiro, aterrisando bem em cima da Josilene.
Finalmente pode ver seu rosto. Bonita, por volta dos vinte e cinco anos, olhos castanhos e apele bem clara. Ou melhor, pálida. O pavor era visível em seus olhos.
_ Me solta!
_ Espera! Vamos conversar, por que você fugiu de mim?
A pergunta foi respondida com uma tremenda “bolsada” no rosto que fez Ricardo ver estrelas. “Que bolsa pesada!” Quando voltou a si, Ricardo só pode ver Josilene, com a bolsa arrebentada entrar rapidamente em um Gol branco que arrancou cantando os pneus. Ainda deu para reparar que no porta-malas do carro havia um adesivo “EROS – Rent a Car”. A Loja da Gorda! Ele já havia lido em algum lugar. Ao pensar em leitura, Ricardo reparou que ao lhe atingir com a bolsa, a moça havia deixado cair na calçada algo que parecia ser um estojo de maquiagem e um livro. Já estava se abaixando para apanhá-los quando um outro par de mãos o fez antes dele.
_ O senhor?
_ Salomão Carlos, médico anestesista. Disse o homem calvo, apontando para o crachá pendurado no bolso do jaleco branco. Nos conhecemos agora há pouco. Como vai a senhora sus mãe?
_ Bem, creio eu. Ricardo hesitou um pouco. _ Obrigado... por perguntar.
_ Que satisfação em saber tão boa notícia! Bela leitura! E creio que isto deva pertencer a sua senhora. Disse o médico ao lhe entregar o livro e o estojo. _ Passar bem.
Era simpático aquele senhor! Tão sorridente e atencioso.
Morrendo de curiosidade em saber mais sobre a tal Josilene, Ricardo guardou o estojo no bolso, apanhou o livro e foi procurar a Vanderly.
Porém, sua busca foi em vão, ela desaparecera. Não estava na enfermaria, na sala das enfermeiras, na recepção nem no necrotério. Simplesmente evaporara. Cansado de tanta correria, resolveu retornar à sala de espera onde sua irmã Rosana o aguardava.
_ Ricardo, onde você se meteu?
_ Fui tomar um pouco de ar fresco lá fora.
_ Ta bom. Olha, o médico já vem vindo. A Cláudia foi levar as crianças no colégio, disse para você ligar se quiser que ela volte para cá.
“Até parece!” Pensou. E voltou ao banco do corredor, passando a folhear o livro. Era o volume dois de “The Game TheoryandEconomicModels”, A teoria dos jogos e modelos econômicos, de H. P. Nightmare, PhD. “Que leitura mais complicada para uma enfermeira”, surpreendeu-se. Mais surpreso ainda Ricardo ficou quando viu o carimbo que estava na primeira página e na lateral do livro. Aquele livro veio da biblioteca perto do banco! A mesma biblioteca onde o finado Jéferson trabalhava! O mesmo Jéferson para o qual ele deveria ter passado o recado da Cybele, ou Jô. A mesma Cybele ou Jô que acabara de fugir dele como o diabo foge da cruz ali no hospital e que carregava este livro na bolsa.
Todas estas coincidências iam e voltavam sem para dentro da mente de Ricardo, mesmo enquanto ele conversava com o médico de sua mãe, Dr. Santana. Ele só se lembrava de ter ouvido as palavras “Dona Lúcia está bem”, “ainda não sabemos a causa” e “ela terá alta amanhã”. Era o mais importante.
_ Ricardo!
_ Oi Cristina! Você veio!
_ Desculpe, só consegui chegar agora. Como ela está?
_ Bem, graças a Deus! Foi só um susto. O médico disse que já podemos vê-la. Você nos acompanha?
Dona Lúcia já conhecia a chefe de Ricardo a algum tempo, de festas e confraternizações passadas. As duas se davam muito bem. Ficaram cerca de quarenta minutos no quarto. Ela já estava bem alegre, corada e não se lembrava absolutamente de nada que acontecera.
Por volta de uma tarde, Cristina sinalizou que iria retornar ao banco e Ricardo lhe pediu uma carona.
_ Que é isso, Ricardo. Não precisa.
_ É só para apanhar uns documentos do plano de saúde, Cris.
Então eles saíram. Ficou combinado que Rosana ficaria de companhia para a mãe até a volta de Ricardo, quando então ela poderia ir até em casa tomar um banho e retornar para passar a noite.
Na verdade, os documentos do plano estavam com ele. O objetivo era ir até a biblioteca e checar quem havia emprestado aquele livro.
 
 
*
 
Depois de uma rápida passada no banco, onde fez uma hora e recebeu apoio dos colegas, seguiu a pé até a biblioteca.
O local já havia sido liberado pela polícia. Ricardo tomou assento em um dos terminais de consulta de livros e periódicos. Como o sistema era integrado, dali era possível acessar a tela de empréstimo de livros. Bastava ter a senha correta, o que para ele não era problema. Costumava invadir sistemas assim quando era estagiário, só por diversão. E bibliotecas não eram referências em termos de segurança. O Jéferson que o diga.
“Vejamos... The Game Theory... volume dois”. Foi um resultado surpreendente. Ricardo conhecia quase todo mundo que havia emprestado aquele livro. O último empréstimo havia sido a seis meses, para Cristina, sua chefe. Uma semana antes havia estado com o Chico, seu colega e, o mais impressionante... Há um ano atrás estava com a Suzi, faxineira do prédio. “Esse livro deve ser ótimo! E muito popular lá no banco”.
_ E aí, Rick, meu chapa, tudo bem? Você por aqui?
_ Oi Chico. É... Vim procurar um material pra ajudar a Laura num trabalho da escola.
_ Ah, The Game Theory! Bomlivro! Já leu?
_ Ainda não. Sobre o que é?
_ Ele faz relação entre os fenômenos econômicos, como o movimento das bolsas e a cotação do dólar aos jogos como futebol, pôquer, gamão e até xadrez, mostrando que eles podem ser previstos matematicamente. Explicou Francisco enquanto folheava o livro. _ Mas algumas páginas foram arrancadas deste aqui.
_ Ah é?
_ É, olha! As páginas 12 e 21.
_ É mesmo... 12 e 21, que coincidência, é o final do número do meu celular e do telefone da minha casa. Disse Ricardo.
_ É um palíndromo. Arrematou Francisco.
_ Como é que é?
_ É um palíndromo. Um número que é lido da mesma forma no sentido normal e de traz pra frente. 1221, de traz pra frente dá a mesma coisa.
_ Interessante...
_ Bom, de qualquer forma, é melhor você começar pelo volume um. Até mais.
_ Até...
Ricardo pesquisou no computador para ver se o primeiro volume estava emprestado. Como não estava anotou o número da prateleira e foi procurá-lo, mas o livro não estava lá. Procurou em volta e nada. “Talvez a polícia tenha recolhido”, pensou, “ou então está misturado por aí”.
 
 
 
 
Ricardo deixou a biblioteca por volta da três horas da tarde e seguiu de táxi para o hospital, onde iria render Rosana junto ao leito de sua mãe.
Antes, porém, resolveu ir até à lanchonete em frente ao hospital. Seu estômago lembrava que não comera nada o dia todo.
Já confortavelmente instalado em uma das espaçosas mesas do “Gordão Burger”, Ricardo começou a relembrar os últimos acontecimentos.
Primeiro, a ligação da misteriosa Jô. Depois, o assassinato do bibliotecário e o reaparecimento do celular. Em seguida o encontro com a moça no hospital e a fuga. Ela conhecia a Vanderly, que depois também sumiu. E a Gorda? Teria alguma coisa a ver caso? Será que foi por meio dela que se conheceram. E o livro? Como um livro da biblioteca do banco foi parar nas mãos da Jô? Coincidência?
Passou a se lembrar da conversa entre eles ao telefone. “Eu preciso que você procure o Jéferson na biblioteca e diga a ele que estávamos errados”. Errados a respeito do quê? “E diga que o nome é Cybele, com ‘y’”. Será que se referia a uma terceira pessoa?
Nesta hora, sentiu o calafrio percorrer sua espinha e percebeu que estava com medo. Com certeza lidava com pessoas perigosas. Um rapaz já havia sido morto e ele se envolvera ainda mais ao perseguir Josilene pelos corredores do hospital. E agora tinha em seu poder um livro que caíra da bolsa dela.
Suas pernas ficaram bambas, começou a suar frio. Pensava em suas filhas, em sua mãe no hospital, em sua irmã e até em Cláudia. Elas poderiam correr perigo.
Mas, ao mesmo tempo, havia uma outra sensação mais estranha. Pela primeira vez nos últimos dias a depressão não tomou conta do seu corpo e da sua mente. Ricardo se sentia revigorado, com mais energia.
Mesmo assim, decidiu que era melhor se afastar de toda esta confusão. Logo de manhã. Iria devolver o livro à biblioteca do banco.
Só uma última coisa precisava ser feita antes de dar o caso por encerrado: conversar com a Vanderly. Ricardo decidiu que iria atrás dela assim que Rosana retornasse ao hospital para passar a noite com a mãe.
Com esta determinação, pagou a conta no “Gordão” e já ia saindo quando ouviu um chamado cada vez mais familiar:
_ Senhor Ricardo! Fazendo uma bela refeição, hein?
_ Hã?

_ Salomão Carlos, medico anestesista! Nos conhecemos hoje lembra?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:46



Mais sobre mim

foto do autor