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Livro Coletivo - Cap. 03

por ornitorrincoquantico, em 13.08.09

Capítulo 3: As chaves

Bruno Cochrane





 








Terça Feira, Ricardo já não sabia o que fazer quando acordou. Sua chefe, Christina, havia lhe dado um dia de folga do trabalho, pois os seus colegas repararam que ele estava com sérios problemas pessoais. Na noite anterior ela havia lhe comunicado essa notícia. A empresa estava indo bem e os computadores sem problemas, e, por um dia, o dia que Lúcia, sua mãe, ia voltar, ele poderia ter uma folga.

“Folga”. Ricardo riu quando ouviu a palavra “folga” da boca da sua chefe. Ele não tinha folga já fazia mais de um ano, quando ele começou a brigar com a Cláudia.

Eram sete horas e sua mãe estava para chegar. Nessas horas ele se lembrava do pai, que era um mediador nas brigas entre a Lúcia e a Cláudia. Sua esposa tinha admiração por seu pai e o chamava somente de Tio Paulo, pois ela tinha nele um segundo pai. Foi desde a morte dele que, talvez, Ricardo pensava, Claudia tivesse perdido totalmente a paciência com sua mãe, ocorrendo então as primeiras brigas.

- VAMOS LOGO, SUA LEZADA... A MÃE TÁ NO CARRO! – Nisso Isadora passa derrubando o pai, indo em direção a porta, deixando Ricardo preocupado com o abuso da filha de quatro anos - TCHAU, RICARDO! VEM, MÃE, MAMOS DEIXAR A LAURA AÍ...

- Isadora, não minta mais para sua irmã! Vamos, queridas, antes que a... “ela”... chegue! Tchau, Ricardo!

- Tchau, pai, te amo... Ahh! Desliga o computador para mim?

Ricardo estava sem ação. Não sabia o que falar. Ele só se lembrava da noite anterior. Do tapa, do telefonema de Christina. Da “Folga”. Ele não ia aguentar mais um dia com a mãe ou a esposa. Ele foi até o quarto sem se despedir direito da família e sentou na sua cama. Pegou sua pasta e a abriu. Pegou então os papéis da empresa. Tinha que fazer algo. Revirou mais ainda sua pasta e encontrou...

O Celular. Ele ficou estático. Ele se lembrou de que havia ignorado o pedido de socorro da quela moça chamada Cybele com Y, ou Jo”alguma coisa”, ou talvez somente Jo. Quem era a moça? E o pobre do Jéferson? Jefinho? Havia morrido por sua culpa... Seria Cybele, ou Jo, a sua namorada, que o teria matado, e fingido sua descoberta? Teria ela sido libertada e achado o namorado no dia seguinte? Seria essa moça uma das assassinas que talvês tivesse se arrependido antes da morte acontecer? E porque o seu celular? Como o haviam conseguido? Muitas perguntas.

Ricardo não conseguia esquecer do tapa na cara de Claudia. Ele então levantou-se e foi até o armário embutido do seu lado da cama. Ele parou por alguns segundos em pé, observando a maçaneta, e deixou uma lágrima escorrer do seu olho. Ele girou a maçaneta e abriu a porta, olhando diretamente para a prateleira mais ao alto. Dela ele puxou uma caixa de papelão e se sentou novamente na cama com a caixa em seu colo.

Ele estava chorando muito e dezesperado. Não aguentava mais. Ele ia abrir a caixa, mas viu escrito em letras garrafais uma mensagem numa das laterais: “USE-A BEM. SUA AMADA ESPOSA”. Ela estava com ele até nas horas que ele queria estar sozinho. Ela era como uma praga que gostava de atormentar o alvo até a destruição psicológica total. Ele já estava totalmente encharcado com suas lágrimas. A depressão finalmente o atingira.

A campainha tocou e ele foi no banheiro enxugar as lágrimas. A campainha tocou novamente quando ele estava guardando a caixa. Decidira não uza-la naquele momento. E foi então finalmente na porta principal. Era Rosâna, sua irmã.

- Oi, Rô. Como vai?

- Rickye, a mãe não pode vir hoje.

- O que houve? Ela estava bem no final de semana!

- Ela não está se sentindo muito bem. As dívidas da casa estão aumentando, e ela me disse que não conseguiu ir no banco no final de semana que esteve aquí.

- Eu não sabia do motivo! Porque ela não falou nada?

- Ela ia te pedir para ir no sábado com ela, mas ela viu que você já está cheio de problemas com sua esposa! Ela até pensou em ficar para ver ontem, mas preferiu voltar aquí hoje, para descansar da briga feia do domingo de noite, quando ela foi embora.

- Ela te contou, né..?

- Rickye, eu quero que você volte para casa!

- E as meninas...

E a conversa com a irmã demorou mais ou menos uma hora, e terminou com Ricardo levando a irmã caçula no banco. Ela, depois de avaliar a história maluca que acontecera na sexta para segunda, mandou o irmão ir falar com a Suzi, a empregada da empreza, pois era o melhor a se fazer.

E foi o que ele fez. Ele desligou o computador para a filha,  deixou a irmã no banco, um outro, pois os problemas da mãe não eram tratados pela sua agência, e chegou no escritório mais ou menos umas dez horas. Entrando na portaria social, ele cruzou com os colegas Ricardo e Fernando, colegas que não tinha uma relação forte, mas que conversava de vêz em quando. Como eles estavam numa conversa que parecia séria, ele decidiu passar direto.

- ... e então a minha esposa – Dizia Fernando – começou a me criticar, dizendo que eu não cuido bem da Dona Juliana, pois ela está doente, e, como minha sogra, eu tenho que...

Na espera para o elevador, Ricardo não sabe o que irá dizer para a Chefe, que mandara ele ficar em casa. Ela não sabia da sua culpa no caso do Jéferson, que não era pequena. Ele esperava não cruzar com Francisco nem Alexandre, pois eles poderiam fazer alguma brincadeira que acabasse fazendo com que ele se descontrolasse. Ele estava com muito medo.

- E aí, Seu Ricardo – Era Zé Fernando – Cê soube que a polícia tá afincada no caso do Assassino do Bibliotecário? Coitado do Jéferson, nem chamam mais o cara pelo nome.

Ele já não aguentava mais a situação. Subiu o elevador e se encontrou com Christina. Ele ficou mudo por um tempo e ela também. Ela queria perguntar mas não tinha coragem. Ele sabia o que ela ia perguntar, e esperou, para depois perguntar pela Suzi.

- Ricardo! O que houve agora? O que a Cláudia aprontou desta vez? Eu mandei você ficar em casa!

- Eu não conseguí! Eu tinha que vir trabalhar. Ficar em casa vai acabar me daixando pior. Vou para o meu escritório. Quando a empregada passar, você pode mandar ela limpar minha escrivaninha, pois está uma bagunça, por favor?

Ao ir para a sala dele, Ricardo passou pela sala de Andréia, onde a viu conversando com Eugênio, e se lembrou da festa do filho do Paulo. Ele fica com vergonha cada vez que se lembra. Foi mais ou menos quando a filha começou a agir estranhamente, talvez por causa da mãe, talvez por causa dos dois, talvez por causa dele. Ele até hoje agradeçe o gerente por não tê-lo demitido, a ainda mais a Christina, por ter influenciado nessa decisão.

Esperou alguns minutos na sala, até a empregada chegar.

- Suzi, esse é o seu nome, não?

- Sim, dotô Ricardo!

- Me chame de Ricardo, por favor!

- Sim Dotô!

- Tudo bem! É o seguinte. Você por acaso achou esse celular em algum lugar e o colocou na minha gaveta, que fica fechada a chave?

- Ih, Dotô, num fui eu não! Num foi o Dotô, não?

- Não, Suzi. Você por acaso emprestou suas chaves para alguém? Ou perdeu elas nas últimas semanas? Ou... Por acaso essas chaves saíram das suas mãos algum momento nesses últimos dias.

- Seu Dotô, teve um dia... só um dia... que eu fiquei preocupada, mas eu as achei no chão depois... num foi nada!

- E onde foi isso... Suzi? – Ricardo já estava ficando irritado.

- Foi na biblioteca, Dotô, foi na quinta feira.

Ricardo ficou branco. Sem reação.

Eram mais ou menos onze e meia quando ele passou no hall e perguntou para a Clara, a secretária, o nome dos visitantes que passaram por lá na última semana.

- Ricardo – ala era amiga dele também – olha... na semana passada, nós tivemos dois visitantes, um na terça e outro na... deixa eu ver... na sexta... Não... na quarta... na quarta feira... Dia seis foi quarta, e não sexta...

Ricardo então ficou mais branco ainda.

- Você tem certeza de quê ninguém alem do pessoal que trabalha aquí no escritório entrou depois da quinta?

- Nós checamos as câmeras de segurança toda segunda feira de manhã, e nós examinamos todos os dias de semana de noite, e todo o final de semana... inteirinho... É isso, ninguém mais além de nós onze. Não, doze, pois o Dr. Paulo apareceu por aquí na quinta.

Ricardo ficou pensando. Ele conhecia as pessoas que trabalhavam naquela agência bancária. Ele, o outro Ricardo, Fernando, Francisco, Alexandre, Andréia e Eugênio. Tinha também a chefe Christina e a secretária Clara, sem esquecer da empregada Suzi. E tinha também o Paulo, que trabalhava no escritório principal, mas que sempre passava nas filiais, sem esquecer do Hudson, gerente daquela agência, mas hoje parece que era seu dia de folga.

Ele estava preocupado. Por isso ele passou na biblioteca, mas estava interditada pela polícia. Ele deu umas voltas no quarteirão, mas todas as entradas estavam seladas. Ele tinha que procurar por essa tal Jo, ou Cybele, e saber qual de seus colegas estava metido no caso. Era muito esquisito, mas era possível.

Ele então pegou a irmã no banco mais ou menos meio dia, e foram para casa. Chegando, ele achou melhor que a irmã pegasse seu carro e fosse dar uma volta.

- É melhor, Rô... Minha esposa tá em casa, e eu não quero mais briga. Você viu como tava a casa? Se bobiar a empregada se encheu da gente e foi embora... Ai talvez a Claudia vá embora de vez, sem as crianças... Sonhar é bom...

- Volta pra casa, Rickye!

- A gente conversa mais tarde. Te pego às dez horas hoje de noite, ai a gente vai comer alguma coisa. Uma pizza, ou um macarrão, vai pensando. Amanhã eu arrumo um advogado para a gente resolver o problema das dívidas.

- Mano, para de se preocupar comigo... Você tem que cuidar dos próprios demônios... Vou indo, para ela não ouvir.

Ele então entra em casa e vê a esposa na cozinha lavando os pratos. Ele então coloca a pasta na cadeira, e vai falar com a esposa, mas se lembra da caixa e do recado.

- Claudia... – ela não responde – Claudia... Você não quer me responder... mas... Bom... eu quero... – nada de resposta – Vou dar uma volta.

Antes de se virar, ele vê a Claudia enxugando um dos olhos. Ele pensa que deve ser a cebola, mas sabe que não é. Ele vai até a mesa e pega sua pasta.

É uma hora mais ou menos quando o taxi o deixa na casa do sei gerente e amigo, Hudson, e consegue o enderesso da oficina da Gorda, onde então ele consegue arrumar um programa com a Vanderly.

As duas ele estava batendo na porta dela. Ela abre a porta e ele entra. Ele está chorando denovo. Ela olha para ele e sente que algo está errado. Eles se abraçam e então ela leva ele até o quarto, onde eles se deitam e ele desabafa sobre a esposa.

Ela vê que ele precisa de algo mais do quê desabafar e o ajuda a esquecer da esposa, fazendo então amor com ele de um modo que ele não tinha como pensar em outra coisa. Ele, durante um bom tempo, pôde esquecer de tudo o que estava acontecendo naquela última semana, ou do quê estava acontecendo naquele último ano, ou até um tempo maior.

Ele pôde relaxar.

 

O sol estava morrendo e ele não conseguia voltar para casa. Ele estava no lugar que sempre ia quando criança, para fugir das brigas e dos problemas de casa. Ele chamava aquele mirante de “Mundinho”. Era num morro, e muito pouca gente ia lá. Ele sempre que estava lá se senntia mais calmo, mas ele só fazia chorar. Ele não aguentava mais aquela situção. Ele precisava levar as filhas e a esposa para um analista. E ele também deveria ir. Logo! Mas agora ele estava com problemas em casa, no trabalho, e morria de medo da polícia, que podia bater à sua porta a qualquer momento.

Uma lua laranja gigantesca nascia no horizonte. Naquela primeira hora de luar a lua era sempre maior do que durante a noite. E ele se lembrava dela, da Claudia e ele, das noites de amor que eles tiveram naquele mirante. De lá ele podia ver seu bairro. Só estava ele lá. E ele queria ficar por mais um tempo, até cansar de não fazer nada.

Vanderly era realmente uma boa garota, mas não era quem ele amava. Ela amava realmente a Claudia, quem ele não podia... não queria... de jeito nenhum, abandonar.  Claudia fora seu primeiro e único amor. As meninas sempre foram boas, mas alguma coisa realmente estava acontecendo.

Tudo estava se estragando ao mesmo tempo. Seu casamento estava acabando. Seu trabalho não dava mais prazer. Sua mãe estava envelhecendo e ficando cada vez mais irritante. E agora essa Cybele. Ou Jo.

Eles estavam todos eclodindo ao mesmo tempo, como num efeito dominó, rumando para um caos definitivo que preocupava internamente Ricardo. Ele talvez cedesse à vontade que o atormentava. Tudo de ruim estava acontecendo e parecia que nada de bom poderia sobrepor à tudo.

Ele ficara por um bom tempo tentando esquecer de tudo.

 

Já era quase meia noite quando ele estava se despedindo da sua irmã para poder ir para casa e no dia seguinte voltar a se preocupar com sua vida. Deixou ela no seu hotel e foi para casa no seu carro.

Seu quarto estava trancado, Isadora estava dormindo e Laura ainda estava no computador, com sua cabeça deitada sobre o teclado, com uma olheira quase chegando na bochecha.

Ricardo desligou a máquina e colocou a menina na cama. Tudo estava calmo agora. Ele beijou a menina e depois beijou Isadora, que se mexeu na hora. Ele foi embora do quarto e se cobriu no sofá. Deitou a cabeça e se lembrou do dia anterior.

 

Quarta Feira

 

Ricardo foi acordado pela Claudia, com uma cara de ódio.

- Porra, Ricardo, você não ouve o telefone, não? É sua irmã, ela está dizendo que é muito importante... Saco... você sabe que horas são?

Ele olha no relógio

- Rô? São cinco da manhã! O que quê houve?

- Ricardo... é a mãe, me ligaram lá de casa...

- O quê aconteceu?

Do outro lado da linha, Rozana estava chorando...

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publicado às 20:38



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