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Livro Coletivo - Cap. 02

por ornitorrincoquantico, em 06.08.09

Autora: Nadja Prado


Ricardo por alguns minutos ficou perplexo pelo que acabara de ouvir.Passou a mão sobre a testa e percebeu que estava suando frio.

 

Aquela notícia tinha acertado bem no fundo do seu estômago, e em questão de segundos, tudo passou pela sua mente - o telefonema da noite anterior, a voz de uma mulher desesperada, e o próprio Jeferson.Um bom rapaz, franzino, moreno,voz de locutor.Tinha pouco mais de vinte e dois anos... Trabalhava, há dois anos, na biblioteca.Durante esse tempo ganhou a amizade de muitos colegas devido a sua simplicidade e seu esforço em cuidar de sua família. Era ele que levava o pão para a casa. Tinha mais duas irmãs menores e uma mãe doente.Era órfão de pai e talvez por isso buscava a atenção de pessoas mais velhas.Seu sonho era ser um ator famoso! Era um dos melhores da Escola de Teatro.

 

Ricardo estava inconsolável. Não tinha muito papo com o garoto, mas o admirava e sempre que podia citava-o para seus amigos. Ninguém tinha ânimo para mais nada. As mulheres cochichavam entre si para tentar decifrar aquela morte estúpida e violenta. Os homens um tanto apáticos com o acontecimento, tentavam elucidar o caso concluindo o seguinte:

 

- Eu falei...esse garoto era esquisito! Vai saber o que ele aprontou! – exclamava Fernando, um dos funcionários do banco.

- Não é bem assim...a violência tá rolando por aí. Hoje foi ele e amanhã? – perguntou Ricardo, um tanto apreensivo.

- Amanhã? Quer saber! Dane-se! Tô cheio de problemas e ainda por cima sobrou pra eu cuidar da sogra doente! A polícia é que resolva, são pagos pra isso! –disse em tom sarcástico a Ricardo e dirigiu-se para a sua mesa.

 

Fernando era assim mesmo.Embora, fosse um homem charmoso, elegante e bom de conversa, era extremamente frio, talvez, por ser mais um dos muitos narcisistas que habitam em nosso planeta.

 

Fora um dia melancólico.Ricardo pouco falou e o pouco que conseguia ouvir, nada entendia... Sua mente vagava e ele desesperadamente tentava encaixar aquele quebra-cabeça! A ligação, a voz desconhecida, o pedido, o uso de seu celular... Sua gaveta  estava trancada quando ele deixou o trabalho um dia antes do crime.Como puderam usá-lo? Somente a empregada, Susi, tinha as cópias.

De repente volta ao mundo real. É despertado por um de seus colegas, o Alexandre:

 

- O que você acha de tomarmos um chopinho? O dia aqui foi terrível! Eu não esperava por esta!

- Obrigado cara! Mas não tô com cabeça pra isso.Apesar de não ter tido muito contato com o Jeferson, sabia que ele era gente fina! E a família dele? Alguém foi até a casa oferecer ajuda? Sei lá...a família deve estar arrasada!

-O pessoal da biblioteca e do teatro certamente já devem ter feito isso.O rapaz morava longe, num lugar de dar medo até em bandido! Puta merda! Acho que acordava na madrugada pra chegar aqui.Coitado!

- Alexandre, tenho que ir pra casa. A minha mãe está chegando e eu preciso ajeitar algumas coisas por lá. Sabe como é? Ela e a Claudia não se combinam! As duas juntas serão uma explosão maior do que a bomba de Hiroshima!

- Que cruz você carrega, hein? Tô fora desse angu! Vou convidar alguém que esteja com menos pepinos do que você!

- Vá sim, Alexandre! Eu estou péssimo e não serei uma boa companhia nem ao menos pra uma barata...

 

A fisionomia de Ricardo mostrava claramente os seus sentimentos naquele momento.Ajeitando seu paletó, dirigiu-se até a sua mesa, ajeitou papéis, abriu a sua gaveta e apanhou o celular. Por algum momento sentiu necessidade de falar com alguém sobre a ligação que recebeu, mas titubeia e volta atrás.O silêncio o pouparia de perguntas, interrogatórios policiais e a fúria de sua esposa, a inconseqüente Claudia. Não valia a pena. Sua vida já estava uma droga!

    

Quando chegou em casa, percebeu que no trajeto inteiro estivera desligado do mundo.

Não sabe como não cometeu um acidente.Tudo o intrigava. Mal entrou em sua casa deparou com uma cena um tanto assustadora.Outro crime? Não! A casa estava completamente virada de pernas para o ar!  Os pratos sujos da noite anterior ainda estavam sobre a mesa. Pipocas, papéis, pedaços de bolachas espalhados pelo chão, sem contar, o nojo que estava a cozinha. Nada havia sido arrumado! Parecia até que um exército havia passado por ali e destruído tudo! Laura, a filha de Ricardo, estava como sempre computador acompanhada com uma pacote de doces..

- Filha!  Que aconteceu por aqui? - perguntou Ricardo.

- Paaaaiiiiiiii!!! - gritou ela alegremente.

- Laurinha!  Desse jeito você vai me lambuzar de doce...mas não tem importância! Um abraço desse vale mais do que todos os paletós do mundo!  Te amo, viu?!

- Pai, a mamãe ficou deitada o dia inteiro...

- Por quê?  Ela tá doente?

- Acho que sim! Ela falou pra mim que tá com muita dor na cabeça.A Isa tá com ela no quarto.Eu cansei de ficar lá!

- Tá bom, Laurinha!  Agora deixa o papai tirar essa roupa, tomar um banho e tentar ver se tem alguma coisa nessa cozinha pra comer, eu não sou de ferro...

 

Mas para viver naquela casa precisa ser de ferro. As coisas não fluíam bem.Nada dava certo. O clima estava pesado.Não havia paz. Não havia amor e muito menos diálogo. As tentativas eram em vão. Quando ambos se falavam, tudo partia para o lado pessoal, diálogos recheados de rancor, ódio e palavrões. Certa vez, em uma das muitas discussões, Claudia, atirou a tv da sala no chão! Acabou cortando levemente um de seus pés e assustando as meninas.Depois de alguns dias, Ricardo, acabou comprando outro aparelho.Um banho morno era a única coisa relaxante a se fazer naquele instante.

 

Dirigindo-se ao banheiro, Ricardo deu de cara com Claudia, que saía do seu quarto. Deus! Ela estava horrível!  Já não era aquela morena de lábios carnudos que ele havia conhecido há tempos atrás. Ainda tinha um belo corpo, mas a beleza anterior já tinha se apagado. Seus olhos verdes continuavam belos, embora, não representassem mais nada para Ricardo.Ajeitando os seus cabelos, Claudia, perguntou-lhe:

 

- Se eu estivesse morta no quarto, você não daria a mínima, não é?

- Não entendi... – disse ele perturbado.

- Já faz um tempão que você chegou e nem ao menos foi me ver. Escutei muito bem o que a Laurinha disse a meu respeito! O dia inteiro minha cabeça parecia que ia explodir de tanta dor!

- Você já teve essas dores antes.Tomou algum analgésico?

- O que importa? Se tomei, se não tomei ou se morri! A empregada não veio pra limpar tudo isso aqui.Ligou dizendo que seu filho está doente...Ah! Amanhã preciso fazer umas comprinhas.Algo básico.Um tapete maior, novas cortinas,quero deixar a casa impecável pra chata de sua mãe não ter o que reclamar! 

- Claudia, já te falei, agora não posso gastar mais! Estamos até o pescoço com dívidas! Você detona todos os cartões de crédito! Compra o que não deve, sem falar no seu troca-troca de móveis... Ponha a mão na sua consciência! Desse jeito,acho melhor você procurar um emprego para satisfazer o seu luxo.Quem sabe sua vida melhora e me deixa em paz-grita Ricardo.

 

Inesperadamente, Claudia esbofeteia Ricardo.

 

Ele sem pensar revida imediatamente. Ela fica paralisada. Seus olhos fixam-se nos olhos de Ricardo. É um olhar gélido que penetra no fundo da alma. Ricardo entra no banheiro e desata a chorar silemciosamente.

 

 

Agora, tudo voltava a sua mente! A última vez que havia chorado foi no enterro de seu pai.Era um bom homem.Companheiro, calmo e extremamente amoroso com a família.Já faziam muitos anos que ele havia morrido.Mas seu exemplo de vida continuava gravado na mente dele.Ele tinha apenas uma irmã mais nova, Rosana.

Ricardo nunca havia agredido fisicamente sua esposa. Apesar dela, por várias vezes, ofendê-lo profundamente, Ricardo sempre se mantivera equilibrado. Porém, os últimos fatos haviam perturbado sua mente.Ele já não sabia o que dizer ou o que fazer.Havia perdido o controle da situação há muito tempo.

 

Teve vontade de morrer. Seria melhor para todos.

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publicado às 21:33



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