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Livro Coletivo - Cap. 01

por ornitorrincoquantico, em 04.08.09

 

Em 2003 eu criei um grupo no Yahoo dedicado a pessoas que gostam de escrever mas que não tinham muito tempo para escrever um livro. O grupo chamava-se Livro Coletivo e a partir de um primeiro capítulo que eu escrevi os demais integrantes dariam prosseguimento à história, escrevendo os demais capítulos.


Deu super certo e conseguimos chegar ao sétimo capítulo. A ideia era ter 10 capítulos, sendo que o último seria de minha responsabilidade. Mas, infelizmente, a história parou no sétimo capítulo. E era uma história de suspense, até hoje não sabemos o que aconteceu com a história. Um rapaz ficou de escrever mais um capítulo mas até hoje não me mandou nada.


Por isso vou começar a publicar os capítulos escritos aqui no meu blog, se por acaso você gostar da história e tiver interesse em participar, me avise. A ideia era terminar a história e futuramente publicar o livro. Se você se interessar me mande um e-mail para: rubaopassos@yahoo.com.br.


E fiquem agora com o primeiro capítulo da história:

 

Capítulo 01

 

Um telefonema

 

Rubens Torres

 

 

-         ...e o Ricardo só dorme!

Ricardo estava tão distraído olhando para o seu copo de cerveja e pensando nos seus problemas que nem prestava atenção no que seus amigos falavam. Ele era Analista de Sistemas em um banco na cidade e todos ali eram colegas seus de trabalho. Toda sexta ele, a Cristina, sua chefe, o Alexandre e Francisco, se reuniam e iam para algum boteco beber e tentar relaxar do estresse em que viviam.

Mas desta vez Ricardo estava mais aéreo do que nunca, principalmente porque o seu casamento estava por um fio. Claudia, sua esposa, era uma mulher de temperamento explosivo e, para ela, qualquer coisa já era motivo de discussão. Suas discussões eram cada vez mais constantes e as maiores vítimas eram suas duas filhas, Isadora, de quatro anos, e Laura, de oito, que assistiam a todas as brigas. O comportamento das duas estava muito mudado, Laura se tornou uma menina muito tímida e tinha medo de todos, chegou a ficar cinco meses sem falar com ninguém. Já Isadora estava muito rebelde, não respeitava mais os pais, principalmente o pai, o qual sempre destratava. Ricardo queria se separar, mas ele nunca fora um homem de atitude, temia que o comportamento das meninas piorasse caso houvesse a separação, e, principalmente, temia o que a esposa poderia fazer para as meninas com a guarda delas.

-         Ricardo – perguntou Cristina – você está preocupado por causa da Claudia, não é?

-         E eu penso em outra coisa.

-         Olha cara, eu já te falei, dá um pé na bunda dela e vai viver com a Vanderly – disse Alexandre com escárnio.

-         Brincadeira mais sem graça - Ricardo fechou a cara depois do comentário do amigo, principalmente por se lembrar do que fizera na última semana. Depois de uma discussão feia que teve com a Claudia dentro do banco, Hudson, um dos gerentes, chamou-o para um canto e convenceu-o de que precisava relaxar um pouco e o levou a uma das famosas festas promovidas pela Gorda. Essa mulher era dona de uma loja de aluguel de carros e promovia, às escondidas, agenciamento de garotas para homens da sociedade. Nesse dia Ricardo só quis saber de encher a cara e se divertir, participando de algo que ele nunca havia feito na vida. Nessa festa ele acabou encontrando Vanderly, uma amiga antiga sua e que era enfermeira. Ele não acreditou na hora que ela participava de algo como aquilo e ela disse que fazia isso por que gostava, porque lhe dava prazer, e os dois fizeram amor ali mesmo, na frente de todos. Depois disso, Ricardo nem pensou em voltar para casa e amanheceu na porta do banco, arrependido do que tinha feito. Chorava feito criança e se não fosse a ajuda dos amigos poderia até ter feito uma besteira. Quando voltou a noite para casa disse para Claudia que havia dormido na casa do Alexandre, o que ela não acreditou nem um pouco.

-         Desculpa, mas, falando sério, larga dela. Vai ser o melhor para você, para ela e para as crianças.

-         E não fica com medo por causa das crianças e nem fica adiando por causa delas – aconselhou Cristina – você só precisa continuar presente na vida delas. O que não pode é vocês continuarem brigando na frente delas. Eu já te falei, elas não estão normais, elas precisam de um acompanhamento psicológico.

-         E urgente – disse Francisco – principalmente aquela mais nova. Ricardo, me desculpa, mas aquela menina é um capeta. Deus me livre, naquela festa do filho do Paulo ela quase pôs a casa a baixo. Espancou duas crianças, quebrou uns três bibelôs, arrancou o mouse do computador e tacou na privada, quebrou uma cadeira, xingou o filho do Paulo e ainda disse para ele que só porque ele era filho de um gerente ele não podia mandar nela. Se fosse filha minha eu tinha matado ali mesmo.

-         Se toca, Chico, se toca...

-         Eu gosto dela, acho que ela não gosta é dos gerentes do banco. Eu ri tanto depois que ela ouviu a Andréia contar que se banhava com arruda e aí ela encheu um copo com água e tacou nela, a mulher parecia uma galinha cacarejando. E com o Eugênio, então? Ele contou para ela que ia ter um filho, e ela estranhou que ele fosse casado porque era muito feio – Alexandre nem desconfiava o quanto estava constrangendo o Ricardo.

-         Ricardo, e o seu celular? Você não está usando mais? Parece que eu não vi você com ele essa semana – perguntou Cristina, tentando mudar de assunto.

-         Não, você sabe que eu acho que perdi.

-         Perdeu? Como assim perdeu? Foi roubado?

-         Não sei, procurei lá em casa, no banco, mas nada. Eu ligo dá fora de área.

-         E você já avisou a operadora, já mandou bloqueá-lo?

-         Não, porque eu acho que foi a Claudia quem escondeu e não quer me falar. Acho que ela deve estar procurando algum telefone ou mensagem arquivada, ou deve estar esperando uma amante ligar para ter motivo para me matar.

-         Nossa, tô me lembrando agora, você disse que a sua mãe vai passar o fim de semana na sua casa, não é? Ela chega amanhã?

-         Nem me lembra, Chico, porque o inferno vai começar! Agora vou ter que agüentar minha mãe e a patroa discutindo durante dois dias...

-         Amigo, eu não queria ser você.

Eles continuaram conversando durante mais um bom tempo até que todos se despediram e foram para casa. Ricardo tinha calafrios só de pensar em voltar para casa e ter que encontrar a esposa com umas vinte pedras, no mínimo, na mão. Ele sempre se perguntava onde que o casamento dos dois tinha dado errado, eles se davam tão bem no começo. Ele não se esquecia do bilhete que ela lhe havia mandado, quando se conheceram na auto escola, onde ela dizia estar apaixonada pelos seus olhos verdes e cabelos castanhos e que ele tinha a voz mais linda do mundo. Até aquele momento ele nem tinha notado a existência dela, mas quando ele viu aquela morena linda de lábios carnudos, não resistiu e começaram a namorar. Do namoro ao casamento foram só seis meses. A mãe dele sempre foi contra o casamento, porque o santo das duas nunca se bateram. Mas eles estavam apaixonados e se casaram. “E agora, o que eu fiz da minha vida”.

Mal estacionou o carro e a Claudia já apareceu xingando a mãe dele.

-         Olha, já te disse que eu não quero aquela jabiraca na minha casa.

-         Ela é minha mãe e você para de reclamar. Destrata a minha mãe para você ver.

-         Para eu ver o que? Eu quero ver onde vai aparecer um homem para me peitar.

-         Me deixa, não quero saber de brigas.

Ela continuou resmungando enquanto ele se preparava para tomar banho. Todo dia era assim, ela reclamava da vida e ele fazia de conta que não escutava.

Ele foi até o quarto da Laura dar um beijo nela. A menina estava no computador, passava quase que o dia todo na frente dele, só saia para ir à escola de manhã.

-         E aí, minha filha, como foi o seu dia.

-         Bem.

-         E sua irmã, cadê?

-         Acho que tá lá fora, não sei.

Ele deu uma olhada pela janela e viu a menina no quintal colocando prendedores de roupa no rabo do Ticó, o gato, e do Albert, o pincher da menina.

-         Isadora, pára com isso, é judiação, eles podem te machucar.

A menina nem prestava atenção, só ria da estripulia.

 

Na hora do jantar só Ricardo e Laura ficavam na mesa, Claudia e Isadora ficavam na sala vendo novela. Era o único momento de paz e silêncio na casa. Quando terminava, Ricardo já recolhia a louça para lavar, evitando assim mais um motivo para discussão.

A novela era um calmante para Claudia, ela não pensava e falava nada enquanto assistia a TV, Ricardo aproveitava para dormir um pouco.

Mas era só a novela acabar que o tornado recomeçava.

-         Isadora, amanhã quando a tua vó tiver aqui dá um chute na canela dela por mim, por favor.

-         Claudia, pára de falar besteiras para a menina – gritou Ricardo que saía do quarto e assumia seu lugar no sofá para ver TV.

-         Ah, vai dar... Deixa eu ir arrumar o quarto pra veia, fazê o quê.

Ricardo procurava por um filme para assistir enquanto a Isadora ficava no chão desenhando. Quando ele encontrou e começou a se interessar pelo filme, a menina começou a mudar de canal apertando os botões da TV.

-         Pára com isso, garota. Que saco, me dá sossego.

-         Uhhmm – mostrou a língua para ele e saiu correndo para o quarto.

Ricardo respirava fundo e pedia paciência. Tentou se concentrar no filme. De vez em quando a esposa rogava uma praga qualquer do quarto, que ele nem dava bola.

Já era quase 11 horas quando o telefone tocou. Ricardo viu que ele não estava na base e não conseguia encontra-lo por ali.

-         Claudia, onde está o telefone?

-         Eu sei lá, procura aí, taí na sala.

Ele revirou as almofadas todas e encontrou o telefone jogado dentro do cesto de revistas. Quando ele foi atender Isadora entrou na sala, aumentou o volume da TV no último e saiu correndo. Ele xingou a garota e foi um custo pegar o controle da TV para baixar o volume.

-         Desculpa, alô, quem é?

-         Pelo amor de Deus eu não sei quem é você mas, por favor, me ajuda – pelo tom da voz percebia-se que era uma mulher desesperada.

-         Como é? Quem é que tá falando?

-         Olha, eu não tenho tempo, eu preciso que você me ajude.

-         Ajudar com o quê? Eu te conheço?

-         Não, graças a Deus encontrei um celular aqui esquecido e encontrei seu número nele. Te liguei por que eu preciso que alguém me ajude, é caso de vida ou morte. Estou desesperada, o tempo está acabando.

-         Como assim, me diz seu nome.

-         Eu preciso que você procure o Jéferson da biblioteca, e diga a ele que estávamos errados, não era nada daquilo. Ah, e diz para ele que o nome é Cybele com y, por favor.

-         Quem é Ricardo? – perguntou a esposa que já estava na sala.

-         Jéferson, que Jéferson, você tá maluca? Não conheço nenhum Jéferson? Que brincadeira é essa? E Cybele? É você?

-         Não moço, não é brincadeira, só o senhor pode ajudar a gente. Tem gente que pode morrer se ninguém fizer nada.

-         É trote, não é? Diz pelo menos quem você é? Se tem gente que pode morrer chama a polícia.

-         Não, polícia não, nunca, seria pior. Eu só preciso que você encontre o Jéferson e dá o recado a ele, por favor. Todo mundo conhece ele, é só perguntar pelo Jefinho da biblioteca, do teatro. O meu nome é Jo... meu Deus, tenho que desligar, ele tá entrando aqui, por favor, por tudo o que há de mais sagrado, me ajuda.

-         Alô, alô, quem chegou? Alô. Desligou.

-         Quem era?

-         Sei lá, uma mulher que disse que achou meu número em um celular e que está passando por dificuldades, pode morrer, sei lá. Me disse que era para eu dar um recado para um tal de Jéferson da biblioteca. Ela estava aflita.

-         Ê eh, que coisa esquisita? Olha na bina, vê qual o número, pode ser trote daqueles seus amigos idiotas. Deixa eu ver.

Ela foi até a base conferir.

-         E então, qual é o número?

-         Que isso, é o número do seu celular...

-         Como é que é?

-         Não te falei que tinham te roubado, e você ainda desconfiava de mim. Aposto que perdeu num puteiro e essa é uma puta te procurando.

-         Não pode ser, droga, eu devia ter ligado na operadora.

-         Você é um bundão. Sabe quem é que te ligou? É bandido, e amanhã eles vão tá aqui nos roubando e matando. Tomara que eles acertem uma bala no meio da tua testa, desgraçado. – saiu bufando para o quarto.

-         E o que é que eu faço, procuro esse tal de Jéferson?

-         Larga de sê viado, será que você é burro. Amanhã eu nem quero tá aqui. Vou levar as meninas para bem longe e só volto depois para dar entrevista para TV, falando da tua morte e da veia. Nossa, é mesmo, tomara que eles estrupem e fatiem a veia.

Ricardo ainda ficou um tempo pensando, mas achou melhor não fazer nada. Realmente, isso tudo era loucura. No sábado já nem se lembrava do fato, principalmente depois da chegada da mãe. A Claudia não saiu como havia prometido, ficou para poder discutir com a sogra. “As duas deviam sentir prazer em brigar” pensava Ricardo.

 

Segunda-feira

 

Ricardo chegou no banco, como de costume, e foi tomar seu café com os colegas. Estava feliz porque o inferno já havia terminado, e sua mãe já tinha ido embora. Os dois dias não foram fáceis, mas saiu com a mãe o máximo de tempo possível, para evitar o clima de casa. E agora já era segunda, mais uma semana para viver, quem sabe não seria a melhor semana de sua vida?

Logo ele se sentou na sua mesa e ligou o computador. Iria trabalhar, pelo menos no trabalho era feliz, apesar do estresse dos colegas e dos clientes do banco. Pegou sua chave e abriu a gaveta de sua mesa. E qual não foi o susto ao encontrar, dentro da gaveta, que estava trancada, o seu celular.

Ele gelou na hora. Como o celular dele poderia estar ali se na sexta ele mesmo fechou a gaveta e não estava lá. E a moça que havia ligado para ele, de onde ela havia ligado. Será que alguém do banco tinha pegado seu celular? “Mas não é possível, só eu tenho essa chave e as chaves reservas ficam com a Susi, a empregada, e ela nunca teria entregado a minha chave para ninguém, muito menos ela teria feito ou compartilhado de uma brincadeira como essa ela é muito séria. O que eu faço?”

Ele começou a olhar a todos os colegas. Não sabia a quem perguntar, não conseguia entender o que tinha acontecido.

Resolveu, por fim, descobrir se o que aquela moça havia lhe falado era verdade. Resolveu procurar o tal de Jefinho, a biblioteca ficava ali perto mesmo, quem sabe esse Jefinho não fazia parte da brincadeira que os colegas estavam armando. O único jeito era morder a isca, porque eles deviam estar tentando animar o seu astral.

-         Cristina, eu vou ter que dar uma saída rápida, já já eu volto, tá?

-         Tudo bem – ela estava ajeitando uma papelada na sua mesa e passando instruções para um dos atendentes, o Zé Fernandes – mas onde você vai.

-         Eu vou na biblioteca, preciso ver se tem um livro que a Laura me pediu.

-         Olha, eu sinto muito, mas acho que não vai adiantar nada você ir lá. Quando eu passei na frente da biblioteca vi que as portas estavam fechadas.

-         Mas por que?

-         Não sei, ouvi dizer que era por luto, mas não sei quem morreu. Zé, você ficou sabendo?

-         Claro, não se fala em outra coisa na cidade, vocês não ouviram no rádio? Um dos funcionários da biblioteca foi encontrado morto pela namorada ontem de manhã. Foi um assassinato horrível, deram trocentas machadadas no coitado.

-         E quem era esse funcionário – perguntou Ricardo, já temendo a resposta.

-         Era o Jéferson, o Jefinho da biblioteca, acho que você o conhece, era um moreninho que fazia teatro.

-         Não, eu não me lembro – e se sentou, branco como cera, na sua cadeira.

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publicado às 17:25



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