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Conto: Queda de Bia Blasé e ascenção de Bia Boazuda

por ornitorrincoquantico, em 08.07.09

 

Bia sempre foi boazinha. Era o que todos diziam dela. E ela era mesmo boazinha. Mas esse era seu problema.

 

Era fácil confiar nela, ela era confiável. Era fácil se afeiçoar a ela, ela era carinhosa. Era fácil ter ela em uma mesa de bar, ela era sociável. Enfim, era uma boa pessoa. Mas... tadinha...

 

O problema era o tal de "tadinha" - Ela é boazinha, né? Mas... tadinha... - era o que praticamente todos diziam dela. Não era culpa dela e nem dos amigos, havia uma tristeza no ar que não permitia que Bia se soltasse completamente. Dentro dela, em um cantinho bem escondidinho de seu cérebro, havia uma Bia completamente diferente. Na verdade igual, mas diferente. Tinha todas as suas qualidades, porém não havia tristeza em seu olhar e era livre como uma ave.

 

Bia queria libertar essa outra Bia. Ela a conhecia e era muito feliz com ela no passado. Mas há muito elas foram separadas. A Bia liberta foi presa e a Bia presa ficou solta. Ela lutou durante muito tempo pela liberdade de seu outro eu, mas sempre foi em vão. A principal barreira é que ela não se suportava, se culpava e se feria. Foram muitas noites de choro no chão do quarto, no chão da cozinha, no chão do banheiro... e em todos os chãos em que lhe foi possível cair e chorar.

 

Ela queria sorrir e até conseguia. Mas o dia seguinte era triste porque ela não conseguia evitar a culpa que surgia. Ela não entendia que culpa era essa mas se rendia a ela por não ter forças para lutar. Sua carne perdia a alma aos poucos e ela não conseguia impedir isso.

 

Queria amar, mas não conseguia. Esperava demais dos outros. Esperava. Esperava. Esperava. E nada. Aí ela sofria. Se culpava. Se feria. Nenhum telefonema. Nenhum recado. Nenhum grito. Nenhum oi. Ela desabava. Seu coração erodia aos poucos.

 

Mas sempre acreditou que isso passaria. Queria acreditar que a mudança era possível. Só não sabia como fazer. Aí pensou uma coisa, tentou e deu errado. Pensou outra coisa, tentou e deu errado de novo. E de novo... E de novo... Aí voltou a espera, voltou a dor, voltaram as lágrimas.

 

 

Até que um dia ela se proibiu de chorar, reclamar e de esperar. Ou melhor, ela continuaria a esperar, mas não planejaria mais nada, viveria, aos trancos e barrancos, mas viveria. Batendo a cara mesmo e deixando as coisas acontecerem. Encheu o peito e gritou: "Que se foda!!!". Ela estava disposta a aprender a viver, não sabia como, mas algo em si dizia que finalmente ela havia encontrado um caminho mais correto.

 

A solidão continuou. O "coitadinha" também. Mas ela dizia: "Um dia muda..." E foi trabalhar, foi conversar, foi estudar, foi na padaria, foi no buteco, foi aonde podia. E esqueceu que estava sozinha, esqueceu que chorava e esqueceu que não se amava e não se perdoava.

 

Um dia, na volta de um desses lugares, ela encontrou um diário jogado na rua. Pegou e leu. Não tinha o nome e endereço do dono, apenas um apelido: Angel. Na noite em que encontrou o diário ela não dormiu. Mergulhou no mundo daquele Angel. E viu uma vida, como a dela, cheia de dores e alegrias. Bia chorou e riu e percebeu que sempre fora muito egoísta. Achava que era a única que sofria no mundo e que o mundo não lhe queria. Mas Angel lhe perguntou: "E você, se quer?" - "Como assim?" - ela respondeu.

 

Respondeu e correu ao banheiro. Se olhou no espelho e se viu, como nunca antes havia se visto. Ela tinha medo de si, mas conseguiu coragem de se encarar frente a frente. E viu a outra Bia. Angel havia lhe libertado. Deu medo, mas ela respirou e estendeu a mão. "Não tenho muito contato com você, mas estou disposta a mudar isso..."

 

"Tem certeza?"

 

 

"Sim."

 

Bia então acordou. E não estava mais em seu quarto, não era mais aquele dia e não era mais ela. Ou melhor, corrigindo tudo, ela estava no seu quarto, era aquele dia ainda e era ela mesma. De verdade. De forma plena e sincera.

 

Aí ela se tornou um furacão e saiu por aí derrubando casas, carregando vacas e levantando poeira. Já não era mais "Coitadinha" nem "Boazinha". Era a Bia verdadeira e sincera que sempre deveria ter sido.

 

Até que chegou o dia de hoje. Ela está nua se olhando em um espelho. E como se sente bela. Suas banhas não lhe incomodam mais, suas estrias se tornaram desenhos de flores belas e cheirosas. Ela se entregou a si e se beijou. Ligou uma música e começou a dançar, começou a sentir o mundo, o ar e a vida. Está plena e livre.

 

A campainha não toca, o telefone não toca, ninguém a grita... mas é diferente. Porque não importa. Ela não precisa esperar nada, a única coisa que precisa já havia conquistado e está em êxtase experimentando um prazer que nunca antes havia sentido.

 

E caiu no chão novamente, no chão da sala, da cozinha, do banheiro... mas não era uma queda, era sua ascenção. E não havia lágrimas. Havia risadas. E ela só tinha uma certeza, essa risada não acabaria no dia seguinte. Não, nunca mais.

 

Era a Bia, apenas. Não mais "Boazinha" mas "boazuda". Não carece mais de ter vergonha, não carece mais de esperar. Sua hora chegou. E não ficaria mais parada, se entregaria ao movimento, ao doce movimento.

 

Quem gostar pode entrar em sua órbita e cirandar com ela. Ela está aberta ao universo. E quem não gostar é só desviar. Só não peçam para Bia desviar sua tragetória para você passar.

 

Ninguém interrompe o movimento de alguém livre.

 

 

Crédito das fotos:

Site Olhares

Foto 1 - Almost Blue IX - Ana Tomás

Foto 2 - Toque - Verme

Foto 3 - Espelho meu... espelho meu... - Nobre

Foto 4- Nice & Smooth - Hugo Macedo

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publicado às 23:19



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