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Arcimboldo (Parte 1 de 2 - Análise de Imagens)

por ornitorrincoquantico, em 21.06.09

O artista selecionado para análise esse mês é Arcimboldo.

 

 

Arcimboldo foi um pintor italiano, nascido em Milão em 1527 e falecido em 1593. De acordo com o site Casthalia, "Arcimboldo trabalhou inicialmente com seu pai, no vitral da catedral de Milão. A partir de 1562 morou em Praga, então capital do reino da Boêmia e hoje da República Tcheca, onde consolidou sua carreira como artista. Serviu na corte de Fernando I e de seus sucessores, Maximiliano II e seu filho Rodolfo II, grandes mecenas. Arcimboldo foi admirado como artista pelos três monarcas, tornou-se pintor da corte e chegou a ser nomeado Conde Palatino. Praga transformou-se no século XVI, principalmente por causa de Rodolfo II, em um dos maiores centros culturais da Europa, de intensa e diversa atividade cultural e científica. Seus governantes eram vistos, além de seus domínios, como simpatizantes do exótico. Nesse contexto, as singularidades da arte de Arcimboldo encontraram solo fértil para florescer".

 

O quadro selecionado para primeira análise é "Rodolfo II pintado como Vertumno, deus romano das estações" de 1590. Vamos ler com calma, procurando perceber cada detalhe da obra. Quanto mais tempo você se dedicar, mais coisas irá perceber.

 

 

Então, o que achou? Já conhecia?

 

A primeira coisa que percebemos nesse quadro é que existe um jogo entre duas possibilidades de sentidos. Em um primeiro momento percebemos que é um retrato de alguém, o tal Rodolfo II. Mas logo vemos que não é uma representação convencional, a imagem de Rodolfo II se forma a partir de um amontoado de legumes, frutas, verduras e flores.

 

A primeira coisa a saber é tentar descobrir quem foi Rodolfo II.

 

 

Rodolfo II foi imperador do Sacro Império Romano Germânico. De acordo com a Wikipedia, ele nasceu em Viena em 1552 e faleceu em Praga, no ano de 1612. "Adotou o calendário gregoriano em 1583. Não conseguiu manter a coesão de seus Estados. Instalou a capital em Praga, atraindo a simpatia dos checos e a hostilidade dos alemães. Haverá revoltas na Áustria 1595-7 e dos húngaros. A partir de 1597 sua saúde declinou e, trancando-se no castelo chamado Hradcany, apaixonou-se pelas ciências e belas artes e se tornou protetor de Tycho Brahé, Kepler, um grande mecenas de seu tempo. Seus irmãos se apoderam do poder. O Arquiduque Matias, vencedor dos turcos, tratou diretamente com eles e obrigou Rodolfo a lhe ceder a Áustria, a Morávia e a Hungria em 1608. O Imperador conseguiu conservar a Boêmia e a Silésia, dando aos súditos protestantes uma carta (lettre de majesté) em 9 de julho de 1609, que lhes concedia, com certas restrições, liberdade de consciência e de culto [...] Rodolfo II foi um dos mais excêntrico monarcas europeus de todos os tempos. Rodolfo colecionava anões e possuia um regimento de gigantes em seu exército. Ele era rodeado por astrólogos e fascinado por jogos, códigos e música. Rodolfo fazia parte dos nobres de seu período orientados pelas ciências ocultas. Patrono da alquimia, financiou a impressão de literatura alquimista".

 

O mais importante a saber sobre Rodolfo II é que ele foi um grande mecenas de Arcimboldo, bem como Maximiliano II, anterior a Rodolfo. Eles patrocinavam o trabalho de Arcimboldo, porque ambos possuiam gostos e atividades em comum, como o ocultismo. Havia na época em que eles viveram um lugar em Praga chamado Câmara de Arte e Prodígios, que era um núcleo do museu de Praga. De acordo com o site Casthalia: "A Câmara reunia os mais diversos objetos estranhos, registros de pessoas com anomalias físicas (desde anões até gigantes), animais, frutas, legumes de diversas espécies, provindos de todos os continentes. Ali Arcimboldo teve condições de fazer estudos para suas obras, observar o pormenor de cada elemento representado, representando-os em seus mais ricos e finos detalhes".

 

E foi trabalhando nessa câmara e com o apoio dos mecenas que Arcimboldo encontrou a matéria-prima principal para os seus trabalhos. Ele começou a pintar quadros que criavam verdadeiras ilusões óticas, formando imagens a partir da união de outras.

 

Ilusão. Uma das principais oposições que encontramos em seus quadros é essa, a ilusão vs. a realidade.

 

Voltemos ao quadro de Rodolfo II para entender isso. Rodolfo, como vimos, foi um homem muito importante e poderoso do seu tempo. Todos os quadros que representavam grandes homens naquela época e durante muitos anos depois, sempre procuravam valorizar as figuras representadas, mostrando poder, luxo e imponência. E era isso que se esperava de um pintor quando ele recebia uma encomenda de alguém importante. Afinal, naquela época, um quadro era muito caro para ser realizado, era preciso uma fortuna muito grande para alguém bancar o preço das tintas. Se os retratos não saíssem ao gosto dos retratados o pintor correria risco de morte.

 

E como Arcimboldo retratou Rodolfo? Como um amontoado de frutas e verduras, algo não muito convencional, mas que foi muito bem recebido pelo retratado, porque ele admirava o trabalho de Arcimboldo na câmara e era um entusiasta de tudo o que não era convencional, como vocês puderam perceber nas citações acima.

 

Elencar todos os elementos que Arcimboldo utilizou na composição deixaria esse artigo enorme, por isso deixo essa missão a você, leitor. O importante é saber que todas as frutas, verduras e legumes utilizados na composição são frescos, possuem uma boa aparência e parecem suculentos. Não há nada que pareça estragado ou podre.

 

Assim, o homem representado é tão vivo e de boa aparência quanto os alimentos. E todos nós precisamos nos alimentar, é condição vital para a vida. Isso mostra que o poder do imperador também é importante para manter a vida de seu povo. Seu povo precisa dele bem como eles precisam de alimentos frescos e saudáveis para se alimentar. E ele não seria um mal imperador, porque ele teria qualidade e saúde, assim como os alimentos representados.

 

Porém, tudo o que é saudável e de boa aparência um dia sempre estraga e apodrece. No quadro tanto os alimentos quanto o imperador aparentam uma boa imagem, mas no futuro definitivamente isso irá acabar. Os legumes e verduras irão estragar, as frutas amargarão e as flores e folhas secarão. Bem como o poder de Rodolfo um dia também acabará, sem falar na morte, que é sempre uma certeza na vida do homem.

 

Se olharmos melhor ao quadro novamente percebemos que existe ainda uma outra fragilidade, todos os alimentos estão amontoados, não há nada que nos garanta que eles estejam firmes e fixos. Ou seja, qualquer esbarrão, chute ou vento pode desabar com tudo. O poder pode aparentar luxo e força, mas na verdade é fraco e pode ser vencido por outras forças. A força vs fragilidade é, assim, uma outra oposição importante do quadro.

 

Espero que tenham gostado dessa análise. Ainda haverá uma segunda parte, onde analisaremos um outro quadro de Arcimboldo e vamos tentar entender em que escola artística se encontra o trabalho dele.

 

Até lá! E continue a ler imagens, é sempre bom para a nossa formação e vida!!!

 

PS: Quem é Vertumno, o deus do título do quadro? Descobri recentemente:

 

"Divindade romana, de origem etrusca, que presidia a fecundidade da terra, a germinação das plantas, a floração e o amadurecimento dos frutos. Apaixonou-se pela ninfa Pomona. Esta, porém, dedicava-se exclusivamente ao cuidado dos pomares e jardins, recusando a corte de seus numerosos pretendentes. Para conquistá-la, Vertumno apresentou-se a ela sob vários disfarces. Assim, transformou-se sucessivamente em lavrador, ceifeiro e vinhateiro, porém não conseguiu realizar seu intento. Por fim, metamorfoseou-se em velha e captou a confiança da amada. Falou-lhe, então, do afeto que lhe dedicava Vertumno. Ao perceber a comoção da ninfa, mostrou-se a ela sob a forma de um belo jovem, conquistando-a finalmente. As sucessivas transformações de Vertumno representam a mudança ocorrida na natureza ao longo do ano: primavera, verão, outono e inverno. O deus é representado sob os traços de um belo jovem coroado de ervas, portando na mão esquerda algumas frutas e na direita uma cornucópia".

Fonte: "Dicionário de Mitologia Greco-Romana", Abril Cultural, São Paulo, 1973, p. 186, s/ autor. Disponível em: <http://www.brasilcult.pro.br/cursos/sobrev02.htm>. Acesso 27 jun 2009.

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publicado às 20:25


1 comentário

Sem imagem de perfil

De fragmentos a 23.07.2009 às 18:54

... estamos sempre a aprender!

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