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Quando a chuva tromba com a gente

por ornitorrincoquantico, em 20.06.09

 

Aguardo o fim da chuva.

 

Seguia tranquilamente meu caminho quando começou a chover e tive que me esconder sob um canto de uma velha casa. O espaço é mínimo, consigo apenas proteger meu rosto e parte do meu ombro. Minha cabeça está encostada numa velha parede descascada e com os tijolos à mostra.

 

E a chuva só aumenta. Observo-a. Vejo como ela molha os carros, cria rios entre as ruas, molha as árvores do terreno baldio e umedece as paredes das casas e prédios. Entre um prédio e outro vejo ao longe a serra e como a chuva embranquece toda aquela paisagem. E esfria, esfria muito, principalmente por causa do vento.

 

O vento rasga meus braços que estão cruzados e os molha com as violentas gotas de chuva. Algumas pessoas passam correndo. Algumas passam tentando equilibrar e proteger seus guarda-chuvas da ação da tempestade. E meu corpo está cada vez mais molhado. Minhas calças estão completamente ensopadas, meus pés estão congelados e mergulhados em uma piscina que se formou em meus sapatos.

 

Deveria reclamar. Meu tempo é curto, eu tinha pressa antes da chuva. Mas a chuva me modificou. Não consigo achar ruim a situação toda. Ao contrário, ali está somente eu e a natureza, eu e o universo. Há muito tempo não ficávamos juntos. O frio, o desconforto e o tempo que passava me fez perceber como era bom não sentir frio, não sentir desconforto e ter tempo, coisa que antes não valorizava.

 

 

Alguém grita: "Corre daí!". Uma vizinha grita: "Esconde aqui!". Eu sorrio, apenas. Não quero perder esse momento, principalmente agora que começou a cair granizo. Agora sim, meus braços sentem uma dor maior e um frio mais profundo. Eu preciso respirar fundo. Nesse momento nem meu rosto está livre da ação da chuva. Deveria reclamar, deveria ansiar por uma cama quentinha e um chocolate quente ou um café bem forte. Mas não, isso eu já tenho em casa. Eu sei que minha casa continua no mesmo lugar, juntamente com todas as minhas coisas e pessoas queridas. E sei que a chuva irá passar. Então, prefiro aproveitar o momento, essa sensação rara que, apesar de gerar desconforto ao corpo, reconforta o espírito.

 

Olho para as plantas do canteiro e imagino a felicidade delas e quanto tempo elas devem ter esperado por esse momento. Para elas não importa que algumas de suas folhas serão arrancadas e quebradas, o que importa é que continuarão vivas. A chuva lhes dá a oportunidade de viver. E eu também quero sentir essa mesma sensação, quero sentir a água da chuva não como uma maldição, mas como uma benção. Quero renovar meu corpo e renovar meus dias. Quero ser e estar com a natureza.

 

Mas o que mantém o sorriso em meus lábios é alguém que eu conheci sem conhecer. Meu coração arde em chamas e aquece todo meu corpo. A chuva já não provoca mais desconforto, muito pelo contrário. Ela me faz pensar em alguém que, definitivamente, não conheço mas, mesmo assim, conheço. Minhas mãos se lembram das mãos dessa pessoa e de seu calor, mesmo que eu nunca as tenha apertado ou acariciado. Meu nariz sente o cheiro doce de seu cangote e cabelos, só que eu também nunca os cherei ou acariciei. Enfim, a chuva me trouxe lembranças que nunca tive.

 

Mas a chuva deseja que eu as tenha. Quer que eu as produza. Ela quer me carregar em sua correnteza, junto com as folhas velhas e as sacolas de supermercado. Ela quer que eu derreta todos os granizos com o calor de meu coração. Ela quer mudar de estado, quer evaporar e se tornar plenamente livre pelo ar. A chuva precisa de mim e do calor que há em meu coração. E eu preciso dela e de sua ação tranformadora.

 

 

Sim, não há mais tempo a perder com medos e inseguranças. É preciso ser forte e ter coragem. Eu preciso me soltar das nuvens e cair em direção à terra do meu destino. Tenho muitos solos a fecundar, essa é minha missão e deveria ser a missão de todo Homem da Terra.

 

Porque depois de tudo vem o sol. O calor do sol. A plenitude dos raios solares. Aí sim estarei pronto para também mudar de estado e me tornar vapor. A vida deve ser isso, um ciclo infinito que durará enquanto não findar.

 

Falando nisso a chuva já passou. A luz do sol atinge em cheio meus olhos, que lacrimejam de felicidade. É hora de voltar ao mundo. É hora de gozar da renovação e da purificação da alma. É hora de seguir a estrada que me leva até aquela pessoa. Aquela pessoa que desejo todo o carinho do mundo e que vive em mim há muito tempo.

 

É hora de conhecer o desconhecido. De ver com os olhos da carne o que os olhos da alma já viram há muito tempo...

 

 

 

 

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publicado às 01:49



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