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Sobre o amor...

por ornitorrincoquantico, em 12.06.09

 

Hoje é Dia dos Namorados no Brasil. Pra todos os lados que você olha vê propagandas e mensagens sobre esse dia e sobre o amor. Mas, não sei ao certo, tenho uma certa impressão de que o amor está morrendo.

 

A palavra amor está esparramada por todos os cantos, nas letras das canções, nas películas cinematográficas, no casal apaixonado da novela, nas letras dos livros e até mesmo no tempero da cozinha. Todos dizem "Eu te amo" mas, ao mesmo tempo, ninguém diz "Eu te amo".

 

Estamos todos muito ansiosos e ocupados. Repetimos tantas vezes uma palavra que perdemos o conceito dela, o seu verdadeiro significado. Ela se torna um clichê que usamos para disfarçar nossas angústias, mesmo sem perceber. Acontece com o amor o mesmo que acontece com a fé. As pessoas estão cada vez mais sem fé. Mesmo pessoas religiosas, que se dizem praticantes de suas religiões, acabam banalizando a fé e não se dão conta disto. As orações são repetidas inúmeras vezes até que chega a um ponto que ninguém se lembra mais o poder delas e do que está dizendo, "O pai nosso que estais no céu" vira uma frase, apenas, que repetimos, repetimos, repetimos... e daí? E onde fica a vivência, a prática da fé? Viver a fé não é saber de cor e salteado o que está escrito no livro de João e gritar para todo mundo que você sabe tudo o que está escrito lá e que então sua fé está conectada com Deus. Não está! Posso ser um ignorante agora, me desculpem, mas eu acho que Deus deseja muito mais que as pessoas "Vivam" a sua fé de verdade do que ficar presos a palavras apenas. O importante não é "decorar" o livro de João, por exemplo. O importante é "Viver" o que está escrito ali. Uso a bíblia como exemplo, mas o que eu digo é válido para qualquer religião. Decorar é fácil, mas viver... e o Homem é um bicho muuuuito preguiçoso, sempre vai optar pelo mais fácil.

 

E assim também acontece com o amor. Repetimos tantas vezes essa palavra e somos inundados diariamente através dos meios de comunicação que acamos deixando de acreditar e viver o que seria o amor de verdade. As pessoas estão se tornando a cada dia mais frias e quando tentam ser carinhosas não conseguem expressar o que sentem, porque é difícil, não aprenderam a ser assim. Ou, se aprenderam, acabam deixando de lado afinal no fim do mês tem conta pra pagar, tem que terminar o projeto que está realizando no serviço antes que o chefe dê uma comida de rabo, tem que correr com os filhos para dar tempo deles irem a todos os compromissos agendados... enfim, tudo tem que ser objetivo, nada subjetivo.

 

 

E o amor é uma trindade, ele abrange 3 aspectos em nossas vidas. De onde tirei isso? Do meu coração (ouvi 3 pessoas falarem isso ao longo de minha vida, parece que estes tipos de amor tem até nome, mas perdi a referência faz tempo, vivo apenas com esse conceito arraigado no meu ser).

 

Exite o amor mais famoso, que é aquele amor que sentimos por outra pessoa e que é profundo e nos faz querer ser e estar com o outro eternamente. Esse amor é tão forte que ele atinge todo nosso organismo, é como se ficássemos doentes. Só de ver a pessoa amada, ou sentir uma breve referência à ela, nosso cérebro enlouquece e perturba todas nossas células através da paixão. E esse rebuliço só termina quando finalmente conjugamos com o outro e nos doamos de corpo e alma. Aí tudo se acalma e finalmente temos uma alma pra compartilhar a nossa existência.

 

O segundo tipo de amor é o que sentimos pela família e pelos amigos (mas os amigos de verdade, não colegas). É um amor diferente, mas muito próximo do outro. Com ele sentimos carinho por pessoas que não escolhemos conhecer (família) e por pessoas que escolhemos mesmo que sem querer (amigos). Esse amor gera carinho, afeto, atenção e responsabilidade. Nos tornamos um pouco responsáveis por essas pessoas. É esse amor que colore nossa vida, descobrimos com ele que não estamos sozinhos e que podemos confiar em outras pessoas. E ele só se manifesta de verdade quando recebemos uma prova de confiança, quando a gente vê que a amizade é verdadeira e baseada em uma troca, um se doa ao outro sem esperar por nada além desse amor amigo. E esse amor faz um bem danado pra nossa saúde, é ele que nos mantém saudáveis. Pois se você está em crise, sabe que pode contar com fulano; se você foi traído, sabe que sua mãe sempre vai ter um colo pra você; você ganhou um prêmio, sabe que Beltrana vai comemorar com você; você está sozinho, vai ter sempre aquela pessoa especial pra te ouvir no MSN; se você descobriu que está doente e é muito grave, um monte de abraços irá te confortar e o que era pra ser doloroso acaba abrandando.

 

Finalmente temos o terceiro tipo de amor. É o nosso amor social. O amor que sentimos por todo o resto da humanidade. É o que nos faz ser solidários, querer ajudar a quem precisa, entender quem errou, dar apoio a quem sofre e você não conhece mas sabe que pode ajudar com um abraço, um carinho e uma fatia de atenção. Esse amor é como uma brisa, tão suave que quase nem percebemos. Mas provoca mudanças transformadoras na humanidade inteira.

 

Então, para uma pessoa viver o amor ela tem que ter consciência destes três níveis de amor e buscar vivê-los e melhorá-los na sua vida diária. Infelizmente, poucas pessoas se preocupam com isso hoje. Muitos casais casam e se fecham para o mundo, eles podem até se amar de verdade, mas, se não viverem os outros dois níveis do amor, nunca conseguirão ser felizes plenamente porque vão sempre esperar do parceiro algo que não sabem o que é e que não está nele.

 

 

Muitos dizem que se amam mas na verdade só trocaram alianças por conveniência social. "Casei porque estava na hora de casar". "O amor não existe!" Realmente, pra quem nunca amou, o amor não existe. É difícil entender ele sem sentir e se a pessoa nunca se abre para esse sentimento ele nunca vai aparecer. Aí, a pessoa passa a vida toda procurando por algo que não encontra e tenta substituir essa falta com outras coisas, como o sexo pelo sexo e o dinheiro. O sexo e o dinheiro resolvem temporariamente, mas acaba rápido. A pessoa se torna um vampiro, quer sugar o sangue de diversas vítimas mas nunca está satisfeita. Com essa brincadeira ela acaba transformando muitas outras pessoas em vampiros também. Vira um círculo vicioso.

 

Pobre das almas que amam demais nesse mundo onde todos estão se fechando para os sentimentos. Já conheci muitas pessoas que amam muito e possuem um amor genuíno e extremamente puro. Eles sofrem porque nunca conseguem ser correspondidos. Como disse, as pessoas não acreditam muito no amor de verdade e quando elas encontram um ficam com medo e fogem. E quem ama ou fica sozinho ou não consegue manter seus relacionamentos por muito tempo.

 

Mas porque as pessoas fogem se todos dizem que querem amar e ser amadas? Porque é muito cômodo para a gente responsabilizar "alguém" pelas nossas amarguras. É fácil dizer "ninguém me ama", "ninguém faz nada por mim", "ninguém me ouve", "ninguém lembra de mim"... aí, quando a pessoa está triste ela usa essas frases de muleta para sua vida. E ela se acostuma a viver com essas muletas. Quando aparece alguém disposto a amar, a se doar a ela, a dar algum carinho, atenção ou simplesmente ouvir ela foge. Foge porque ela não poderá mais usar essas muletas, porque se usar na hora sua consciência vai lhe dizer que está errada e que o verdadeiro problema está...

 

..com ELA. Sim, esquecemos de nos conhecer e de nos amar também. Passamos muito tempo procurando coisas nos outros quando na verdade elas estão escondidas dentro da gente. Somente amando a gente primeiro, nos perdoando, nos aceitando como somos, nos respeitando, respeitando nosso corpo e nossa alma, nos valorizando, nos alegrando, é que estaremos aptos a viver toda a plenitude do amor.

 

E o amor é divino. Não existe amor que não seja divino, que não venha de Deus. Deus se coloca em nossa vida através do amor e quando amamos estamos em conjunção com Ele. Mas não pense que é fácil, se você se dispor a se amar e a amar, se prepare. Você será testado para saber se sua fé e seu amor são vividos de verdade ou se são apenas repetição de palavras. Você só sente essa dificuldade quando, por exemplo, se descobre amando alguém que não pertence ao seu mundo, fazendo amizades com pessoas de outros credos, culturas e tribos, quando é traído por alguém de sua família, quando ama alguém de outra religião, ou do mesmo sexo, ou mais velha, ou casada, ou de outra cultura..., quando você se depara com alguém monstruoso e que causou um grande mal a você, quando você se torna impotente... enfim, deu para perceber que dependendo as nossas atitudes frente a tudo isso são decisivas para mudar o mundo ou não. Se você aceita mudar, deve ter consciência de que o mundo irá te condenar, principalmente aqueles que querem controlar sua forma de pensar. Mas você deve ter a consciência sempre de que Deus está do seu lado e ele vai te dar todo o apoio possível e todo colo necessário. O seu exemplo, no final, é a grande dádiva divina e que ajuda realmente o mundo a ser um lugar melhor. Isto é válido até para os ateus verdadeiros, aqueles cuja fé afirma na não existência de Deus. Deus se orgulha da fé deles também. Mas isto é uma outra história...

 

 

"Carece de ter coragem..."

 

Complemento meu texto com um texto de Marcel Cervantes em seu blog Recanto das Letras, em referência ao livro Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa:

 

"'Carece de ter coragem, carece de ter muita coragem...' – é o que diz o Menino em meio à travessia do Rio São Francisco para o pequeno e medroso Riobaldo. Eis uma das passagens mais belas e profundas do livro “Grande Sertão: Veredas”; passagem esta que selaria para sempre o seu misterioso envolvimento com Diadorim, figura ambígua em todos os aspectos que se possa imaginar, trazendo em si todo um universo de opostos, reunindo os extremos de um modo que desafia a razão e deslumbra nosso ser; “derramando pelas páginas do livro uma ambivalência que torna tudo possível” e insuflando na vida de Riobaldo algo que a aproxima de um verdadeiro mistério religioso. Diadorim é o ponto de apoio em torno do qual gira toda a história de Riobaldo; núcleo gravitacional que modifica tudo o que há no mundo, como se tudo existisse em relação a Diadorim – desde o pequeno manuelzinho-da-crôa, passando por Otacília, por Hermógenes e pelo próprio ser de Riobaldo, em suas múltiplas e variadas formas. Diadorim converte-se então em símbolo da completude, daquilo que é inteiro, uno, que sabe o que quer e não teme coisa alguma; canalizador do destino e da ligação de Riobaldo com o mundo sertanejo dos Gerais, como se fosse o caminho predeterminado do curso de um rio – desse rio chamado Riobaldo, que traduz tal situação para si mesmo pela expressão “amizade mandante”. [...]

Diadorim é alvo e meio ao mesmo tempo: o “amor de ouro”, o amor destinado, o amor que abarca e carrega de sentido a vida inteira, como se Riobaldo ganhasse forças para ser Riobaldo, para transformar-se em Riobaldo, não somente por ele, mas principalmente para ela – para Diadorim: o ela que se mostra como ele... “Diadorim é a minha neblina”; “Sabendo dele o senhor sabe tudo de mim”. Aliás, o próprio nome Diadorim revela-se ambíguo, não sendo nem masculino nem feminino – “é nome de passarinho?” Seu nome de batismo era Maria Deodorina; e há quem diga que a partícula “Deo” faz referência a Deus; da mesma forma que se poderia dizer que a partícula “Dia” faz referência ao Diabo... Não há como saber ao certo. “Tudo é e não é”. No universo de Grande Sertão, importa menos a conclusão final do que aquilo que se sente durante a travessia, pois é ali que está “o real”. Talvez se Riobaldo não estivesse tão certo de Diadorim ser um homem, ele pudesse reconhecer a verdade... E só para concluir os paradoxos: se Deus, na tradição cristã, é onisciente, onipresente e onipotente, então Ele próprio criou e perpassa o Diabo; ou seja, os dois convivem misturados: “O diabo na rua, no meio do redemunho”. A diferença é que Deus é a afirmação do todo; ao passo que o Diabo é aquele que divide'.

 

E também com duas músicas. A primeira é o "Hino ao amor", de Edith Piaf na versão de Maysa e, a segunda, "Deve ser amor"", do Kid Abelha. E que todos tenham um ótimo DIA DOS NAMORADOS, não só hoje, mas em todos os dias de suas vidas. E que não seja apenas o dia dos namorados mas que seja, principalmente, o dia do AMOR!!!!

 

 

PS: As imagens são do Tim Burton, vc pode enviar cartões do dia dos namorados com esses temas (pelo Facebook) entrando no site dele. Clica aqui!

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publicado às 19:50



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