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Conto: O pernil de Natal

por ornitorrincoquantico, em 16.01.07
Esse conto eu escrevi como exercício de redação no cursinho pré-vestibular em 2005. A primeira linha é uma cópia de um texto do Guimarães Rosa (acho que é ele mesmo, se não estiver enganado). Era preciso dar continuidade à história, não esquecendo dos elementos que estavam presentes nesse início.
O pernil de Natal
A mulher desapertava a roupa, despia-se cantarolando e eu me conservava distante, encabulado, tentando desamarrar o cordão do sapato que tinha dado um nó. Não podia descalçar e olhava estupidamente o despertador que trabalhava muito depressa. Os ponteiros avançavam e o laço do sapato não queria desatar-se. O marido dela berrava de minuto a minuto reclamando que estavam atrasados.
-          Tô quase pronta!
-          Quase pronta! Sei! Já perdi a conta de quantas vezes você repetiu essa ladainha.
-          E o que tem de mais? Não iria adiantar nada, o pernil não tá pronto.
            Eu trabalho como vendedor de doces na esquina da casa deles e naquela noite ela me procurou perguntando como eu passaria a noite de Natal. “Sozinho, como sempre” respondi. Ela então perguntou se eu não queria ganhar um dinheiro ajudando-a nos preparativos da ceia.
-          É muito simples, eu e meu marido Samuel combinamos de reunir toda nossa família na casa dos pais dele e cada um ficaria encarregado de alguma coisa. Eu fiquei de levar o pernil e a maionese, só que eu fiquei fora o dia inteiro e não preparei nada, nem encontrei ninguém que pudesse me ajudar. Por isso eu tô pedindo que me ajude, por favor! Te pago R$ 200,00 e você será nosso convidado. Aceita?
            Aceitei e passei parte da noite descascando batatas enquanto a Daniela tentava temperar o pernil, pois nem temperado o danado estava ainda. Ela teve que ligar para a mãe pedindo orientações.
-          ...e como é que o Samuel deixa você se responsabilizar pelo pernil? Você é tão desastrada.
-          Não fale assim, mamãe! Eu quis me mostrar prestativa e eu sei cozinhar, a senhora sabe.
-          É, mas eu lhe expliquei tantas vezes como se temperava e repeti várias vezes para deixar o pernil descansando com o tempero durante um dia.
-          Eu sei, eu sei! Mas esqueci. E agora? Já lambrequei o danado com o tempero.
-          Bota no forno e deixa assar por duas horas e meia, mais ou menos. Nesse tempo ele deve ficar bom.
-          Que bom, vai dar tempo. Nós combinamos de chegar às onze e meia. Ainda vou ter muitas horas para não atrasar.
-          Então aproveita e deixa o tempero descansar um pouco na carne para dar um gosto melhor.
-          Tá certo deixo ele aqui na mesa enquanto termino a maionese.
Daniela pegou as batatas e ovos que eu havia descascado e fez a maionese. Por fim ela ligou o fogo e me pediu para ajuda-la a embrulhar os presentes, que também não estavam embrulhados, para desespero do marido. Ela pegou um despertador e marcou o tempo para o pernil ficar pronto.
Eram tantos presentes e embrulhos no quarto dela que nem percebemos o tempo que voava. Por fim acabaram-se os laços e ainda faltavam dois presentes. Sem titubear, ela me perguntou se não poderia dar os cadarços do meu sapato, que eram vermelhos, para embrulhar os dois últimos presentes. Nem tive escolha e tive que ceder, com a garantia de que ela me emprestaria outro cadarço. Enquanto tentava desatar o nó que não soltava de jeito nenhum, ela começou a se trocar ali na minha frente mesmo. Não sabia para onde olhar, além do medo do marido ali do lado. Com muito custo consegui soltar os laços e deixei-os sobre a cama. Saí de fininho e fui me sentar na sala, junto com o Samuel, que estava com uma cara péssima.
Estava tão angustiado que acabei cochilando, só fui acordar com os berros da Daniela que ainda estava no quarto.
-          Meu Deus, Samuel, olha a hora!
-          Agora você resolveu se preocupar com a hora?
-          Seu idiota, eu programei o despertador errado, ao invés de programar para despertar às 22:00 h, eu programei para às 10:00 h, dez da manhã, não da noite!
-          Mas você não faz nada direito...e já são dez e meia. O que você está esperando? Vai lá tirar o pernil!
-          Ai, já vou. Mas que estranho, eu não tô sentido o cheiro dele.
Ela correu então para a cozinha e voltou logo com uma cara meio assustada.
-          O que foi? Eu conheço essa cara sua! Fala logo!
-          Eu tenho uma notícia boa e uma ruim. Qual você quer primeiro?
-          Não faça gracinhas!!!
-          A boa é que o pernil não queimou...
-          Ahhh... que bom! Já estava preocupado...
-          ...e a ruim é que ele também não foi assado.
-          O quê??? – gritou o marido possesso – Sua, sua...
-          Calma, eu liguei o forno e esqueci de botar o pernil.
-          Meu Deus, que esposa o Senhor foi me arrumar!!! E agora, me diga? O que vamos fazer? Você estragou o nosso Natal e o pior é que agora a gente não vai encontrar nenhum lugar para comprar um pernil assado.
-          Não se preocupe, para tudo se dá um jeito, e eu vou resolver isso. Temos uma hora ainda...
-          Mas em uma hora você pensa por acaso que esse pernil vai ficar pronto.
-          Vai sim. Olha só, eu vou destrinchar toda essa carne e vou cozinhar aos pouquinhos nas bocas do fogão e no microondas. E vou aproveitar que a Miriam deixou a chave do apartamento comigo e vou usar o fogão e o microondas dela. O fogão dela tem 6 bocas, logo, logo vai estar tudo pronto.
-          Você está louca? Você quer cozinhar a carne aos poucos? De onde você tirou uma idéia dessas?
-          Eu sou estudada, meu filho, eu estudei química e me lembro que quanto menor for uma substância, mais rápido a solução fica pronta. A gente vai preparar esse pernil aos poucos e o que a gente conseguir até às onze e quinze nós botamos numa panela, misturamos, fazemos uns arranjos, uns pratos bonitos e vamos embora. E eu ainda vou dar uma de metida com suas irmãs, vou dizer que é um prato novo que aprendi na Ana Maria Braga.
-          Que Deus tenha piedade de nós.
Não tivemos outra escolha e tivemos que ajuda-la. O Samuel ficou destrinchando a carne, eu fiquei responsável pelo fogão e ela corria de um lado para o outro. A Daniela abriu a casa da vizinha que estava de viagem e ligou o fogão e o microondas. Era um desespero só, eu tive que me dividir entre os dois fogões, e toda hora corria de um apartamento até outro, mexendo as carnes para não queimar. Já a Daniela lutava com os microondas e a toda hora esquecia de parar para virar as carnes e elas acabavam assando de um lado só. “È só um toque de carne mal passada, no fim vai ficar tudo bom!”
Assim que alguma carne ficava, digamos, pronta, a Daniela pegava e jogava tudo em um panelão.
-          Já são onze e cinco, não vai dar tempo – gritava o marido.
-          Calma, amor, tive uma outra idéia!
-          Ah meu Deus...
Percebendo que mesmo assando a carne assim não conseguiria assar tudo, ela resolveu esquentar todas as carnes prontas que estavam na sua geladeira e misturou com o pernil. Aproveitou também e misturou um resto de salpicão, duas latas de ervilha, uma de milho, um resto de maionese e uma gororoba verde que não eu não consegui identificar.
-          Você não vai servir isso para meus pais.
-          Vou sim e você não tem escolha. Eu digo que esse prato se chama Petit du champ e que é o encontro de Minas com o Rio Grande do Sul.
-          Você é louca!
-          Tá bom!!! Agora podemos ir.
Ajudei eles a levar as panelas e os presentes para o carro e fomos para a casa dos pais do Samuel. No caminho ele pediu para a Daniela ligar para avisando que já estavam indo.
-          Oi D. Geralda, tudo... o quê? O que foi? Não chore D. Geralda...acalme-se!
-          O que foi Daniela, pelo amor de Deus o que tá acontecendo?
-          Sei... meu Deus... que horror... Jesus...
O Samuel parou o carro desesperado e ficou tentando tomar o celular das mãos da Daniela, que o empurrava e pedia para esperar.
-          Entendi... qual hospital...
-          Ai meu Deus, meu pai... – ele então começou a chorar.
-          Eu aviso para ele... anrã... a gente vai para lá. Beijos. Tchau.
-          O que foi??? – berrou o marido quase matando a esposa.
-          Foi um acidente...
-          Meu pai morreu???
-          Não, tá só queimado...
-          O quê???
-          Sua irmãzinha querida que foi preparar o churrasco e acabou incediando a casa. Foi todo mundo para o hospital... acalme-se... está tudo bem. Foram só uns queimadinhos de nada, um susto.
O Samuel começou a chorar feito criança, mas a Daniela parecia feliz. “É que eles não vão poder me responsabilizar por ter acabado com a festa, minha cunhadinha querida já me ajudou!” – Cochichou ela ao meu ouvido.
-          Bem, então acho que já vou, já que não vai ter ceia mesmo.
-          Muito obrigado, queridinho, você me ajudou muito! Depois eu acerto com você, tá bom? E desculpa a amolação!
-          Que isso, foi um Natal muito divertido.
-          Você me faz só mais um favorzinho?
-          Até dois!
-          Pega esse pernil e distribui para aqueles mendigos ali para mim. – ela apontou para quatro mendigos que estavam dormindo na calçada. – assim eu realizo minha boa ação de Natal e não desperdiço essa carne.
-          Pode deixar que eu dou para eles.
Servi o pernil para os pedintes, que ficaram muito felizes e agradecidos. Prometi que os apresentaria depois para a benfeitora deles mas nem imaginava que eles se encontrariam tão rápido, logo no dia seguinte quando eles deram entrada no hospital com intoxicação alimentar, no mesmo hospital que estava internado os pais do Samuel.
 

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publicado às 02:03


2 comentários

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De ornitorrincoquantico a 16.01.2007 às 04:46

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De ornitorrincoquantico a 16.01.2007 às 04:46

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