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Chocolate Surpresa

por ornitorrincoquantico, em 07.05.09


 

Quando era pequeno, na época em que minha única preocupação na vida era saber a letra da nova música da Xuxa, eu vivia cercado por livros da minha irmã. Olhava aquele monte de livro e ficava admirado com eles. Queria entender o que aqueles risquinhos pretos queriam dizer e por que minha irmã se demorava tanto com eles.

 

Atormentava minha irmã para que ela me desse algum. De vez em quando ela me dava um ou outro já velho. E eu mergulhava neles no que eu conseguia entender: as imagens. A maioria dos livros que ela me dava eram didáticos e com diversas ilustrações. Então sentava no chão de terra batido do terreiro lá de casa, à sombra da goiabeira, e viajava no mundo daquelas figuras. Algumas recortava e colava em algum outro papel, mas muitas eu não tinha coragem, parecia ser um certo desrespeito com o livro.

 

De tanto olhar para aqueles livros não é que aprendi a ler? A primeira coisa que li na vida foi o logotipo da geladeira lá de casa: General Eletric. Minha mãe assustou-se quando viu aquela criança que ainda não ia à escola repetindo essa palavra.

 

 

"Onde você viu isso?".

"Ali, mamãe..."

"Mas não é possível. Você deve ter visto na TV".

"Não foi não, foi ali".

"Então me mostra".

 

Ela me pegou no colo, me levou até a geladeira e eu mostrei à ela. Ela chorou e começou a me mostrar pra todo mundo. Chamava os vizinhos todos os dias para que eu lesse a geladeira para eles. Depois, quando começou a exigir mais, pegando outras palavras, eu simplesmente desaprendi a ler. Não conseguia ler mais nada. Nem General Eletric.

 

Só voltei a ler no pré-primário. Fui o sexto da turma a ler. Foi num fim de mês de maio.

 

Quando voltei a ler, revi todos aqueles livros da minha irmã. Ela de início achou maravilhoso.  Quando li o Pequeno Príncipe ela achou inacreditável. Quando li O alquimista ela achou desaconselhável. Quando peguei Cem anos de solidão, ela tomou o livro de minha mão, achou absurdo. Não era para minha cabecinha de 7 anos. Ela então passou a me emprestar livros infantis. Eu gostava. Ler era o maior barato para mim, bem como desenhar e pintar.

 

Mas enfim, estou fazendo um rodeio enorme e ainda não entrei no que eu queria contar nessa crônica. Vamos lá.

 

 

Desses livros que eu tinha que eram da minha irmã, havia um que era de português da quinta série e continha vários textos para leitura e interpretação, todos ricamente ilustrados. Um desses textos tinha uma ilustração que adorava. Era um menino, com carinha de pobre, olhando, por trás de um grande portão de ferro, um outro menino, com carinha de rico, que brincava sozinho em sua casa. A história falava de como o menino pobre observava o menino rico e queria ser seu amigo, mas não sabia como, até que um dia, não me lembro porque (acho que por causa de uma bola que caiu no quintal do menino rico), eles acabaram se conhecendo e se tornaram bons amigos (depois de algumas divergências, claro).

 

Essa ilustração me marcou muito. Eu achava fantástico o olhar do menino pobre. Me reconhecia nele. Nessa época eu tentava fazer amizade com alguns meninos mas eles me tratavam mal, por sermos de universos muito diferentes.

 

Segui minha vida mas a imagem desse menino permaneceu na minha mente. Sempre que alguém se destacava em minha vida e eu tentava me aproximar para me tornar seu amigo, era como se eu fosse aquele menino atrás das grades. Queria me aproximar, mas não sabia como.

 

Na maioria das vezes não deu muito certo, afinal você não escolhe amigos, amizade nasce de uma forma inesperada, sem data, nem hora. Mas algumas poucas vezes deram certo. E dão certo até hoje. O que é maravilhoso.

 

Pois bem, novamente aqui estou eu, atrás de uma grade, olhando para um menino e uma menina incrivelmente distantes de mim. Elas seguram um caderno na mão, um escreve, o outra, desenha. Um brinca, o outra, recorta. Um sonha, o outra, molda. Estão próximos, mas não se conhecem. Apenas eu, que observo de longe, reconheço os dois. O que é difícil, está cheio de gente nas casas onde elas vivem. Muita gente, gente demais.

 

 

Mesmo assim não as perco de vista. Consigo escutá-las. Elas falam. Falam muito. Quando falam pouco eu dou um suspiro. Quando entendo o que elas dizem, fico feliz, porque elas dizem coisas que respondem minhas dúvidas mais profundas.

 

Faço então alguns aviõezinhos de papel e taco pra eles. O menino vê, sorri e me devolve grande parte. A menina nem liga.

 

 

Um dia, mas não no mesmo dia, eles olharam para mim. Foi logo quando eu cheguei nesse portão. Mas eles baixaram o olho e me evitaram. Minhas roupas estão realmente surradas, mas só fui perceber isso muito tempo depois. Aí já era tarde, não poderia mais tornar a olhá-los novamente olho no olho. Mas acho que foi isto que me motivou a não desistir deles. Deveria esperar para que eles desejassem me ver. Por que? Não sei, meu coração pediu. E meu coração pediu demais, disse-me que o universo precisava que a gente se unisse e brincasse um pouco. Não dá para brincar de stop ou barra manteiga sozinho, não dá...

 

E esperei. Esperei. Esperei mais um pouco. E os escutei. Escutei. E escutei mais um pouco.

 

E todo dia passou a ser assim: brincar pela manhã em casa, almoçar, correr para o portão, os observar um pouco, correr pra escola, brincar com meus amiguinhos reais, correr de volta pro portão e, por fim, voltar correndo pra casa.

 

Com o tempo, o menino passou a ser mais cordial, até se aproximou do portão. Então aproveitei e dei uma oferenda pra ele, ele aceitou e me agradeceu. Fiquei feliz. Mas depois aos poucos ele foi sumindo. Rasguei um papel e escrevi e desenhei algumas coisas e fiz um avião que joguei pra ele. Ele olhou o avião, dobrou e colocou no bolso. Voltou para sua casa.

 

E não é que um dia eu escutei a menina pedindo uma oferenda? Corri na casa dos meus amiguinhos para ver se eles tinham e encontrei na casa de um, que me deu de bom grado. Imediatamente corri de volta ao portão e gritei pela menina. Ela me ouviu e timidamente respondeu, sem entender muito bem. Eu disse à ela que tinha a oferenda que necessitava e joguei no quintal. Ela foi lá, catou e voltou correndo para dentro de casa. Antes, deu uma olhadinha no portão para ver se me reconhecia. Acho que lembrou de algo, mas não sabia o quê. Mas mesmo assim sumiu dentro de sua casa.

 

Eu continuei indo ao portão. Mas com menos frequência. Tive uma ideia pra que eles viessem falar comigo. Seria a última ideia a ser colocada em prática. Então corri pra minha casa e me tranquei no quarto. Botei a ideia em prática. Era uma ideia tão boa que usei também com outros amiguinhos meus. Eles gostaram, ou pelo menos eu acho que sim.

 

Agora estou a pensar: vale a pena? Poderia ocupar minha vida com coisas tão mais úteis do que com duas pessoas que nem sabem ao certo que eu existo. Mas quer saber? Eu acho que vale a pena, tanto pra mim, quanto pra eles. Sou muito novo para entender como as coisas do mundo funcionam, mas sei, bem dentro de mim, que eu preciso deles. E eles de mim. Como sei? Sei lá, como diria Chicó, só sei que é assim.

 

Também pensei que, caso eles me olhem nos olhos, se eu continuaria atrás do portão ou percorreria toda a distância que nos separa para de alguma forma sentir suas presenças. É, amizade é bom, mas exige muitas responsabilidades. Você realmente se torna eternamente responsável por aquele outro que ao mesmo tempo em que é igual a você é diferente também. E demora. Amizade é como uma planta, até ela deixar de ser semente, virar broto, crescer, virar árvore e dar frutos demooooora... eu tenho uma árvore que já tá com 18 anos, sei como é demorado e exige responsabilidade. Mas não há nada melhor que colher os frutos e saborea-los sob sua sombra.

 

Olha, vou ser muito sincero, não sei como termina essa crônica. Tenho medo de dar um fim à ela. Ela fala de mim mas tem a responsabilidade muito grande de falar de você, leitor, também. Essas três crianças representam coisas importantes em suas vidas também, eu acho. Eu só não sei qual das três crianças você é, mas, se você parar pra pensar um pouco vai reconhecer. Me apague da crônica e insira você. Transforme o menino e a menina no que você quiser, pode ser um emprego, um carro, uma amizade, um animal, um objetivo, enfim, o seu objeto de valor. Viu como as coisas começam a ficar mais claras? Não ficaram? Duvido que você tenha gasto seu tempo lendo essa crônica enorme se não tiver se identificado com algo. As explicações estão todas com você, não comigo. Eu apenas seleciono palavras e imagens, o sentido apenas a sua cabecinha pode dar.

 

 

 

Está bem, eu sei que você está ansioso pra saber o porquê dessa crônica se chamar Chocolate Surpresa. Como eu já sabia que esta história não teria um final convincente, resolvi finalizar com uma barra de chocolate que eu comia muito quando era pequeno. Eu colecionava todos os álbuns e figurinhas desse chocolate. E sempre que lançavam um albúm novo, eu juntava as embalagens e mandava para ganhar o álbum. E ficava numa ansiedade danada esperando pela chegada dele. Levava 35 dias para chegar. Eu controlava o calendário para saber quantos dias ainda faltavam. E esperava. Esperava. Esperava... Enquanto ele não chegava, eu saboreava o chocolate. Era delicioso e nunca mais fizeram nenhum chocolate tão bom quanto esse.

 

Entendeu? Não? Bem, não importa, como diria Clarice Lispector, não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

 

 


 PS: a autoria desta crônica é do Rubens menino. Eu acreditava que ele já havia crescido, mas descobri recentemente que não. E ele está me fazendo passar muita vergonha. Mas estou gostando. É bom recordar a infância de vez em quando.

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publicado às 02:28



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