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Sobre o Alzheimer

por ornitorrincoquantico, em 19.04.09

 

Há muito tempo tento escrever sobre esse assunto, mas sempre foi muito difícil. Meu pai é portador do Mal de Alzheimer e começamos a perceber que ele tinha algum problema em 2001, apoós a morte de minha avó, mãe dele. Fui o primeiro a desconfiar que ele poderia ter alzheimer, mas preferi esperar. Lembro até hoje quando o médico deu o diagnóstico e explicou a minha irmã o que era. Ela sofreu muito e eu tive que ser muito forte nessa época.

Ao longo dos anos acompanhamos a mudança em nosso pai. É estranho, ele era um homem muito trabalhador, trabalhava desde crianças, era pedreiro (um dos melhores pedreiros de Passos) e tinha uma energia e disposição incrível. Com a doença, tudo foi mudando.

Quando ele parou de trabalhar e se aposentou ele sofreu muito. Não sabia ficar parado e agora não poderia mais fazer o que mais amava na vida. Ficou muito deprimido. Os amigos sumiram, os colegas nunca mais apareceram (apenas os que tinham alguma coisa emprestada com o meu pai é que apareceram para receber seus bens de volta) e foram poucos da família que realmente ajudaram e se preocuparam. Eu não sei se as pessoas são muito materialistas e acham que ajudar seja oferecer algo material ou dinheiro ou se eu é que sou muito simples. É tão difícil para essas pessoas dar um pouco de atenção ou carinho? O meu pai não quer dinheiro ou presente, ele quer atenção, amor e respeito (o que me consola é que meu pai já não reconhece mais essas pessoas falsas quando elas cruzam pelo seu caminho).

Acho que todos nós ficamos um pouco deprimidos, não sabíamos como agir, o que falar, o que fazer... nessas horas a linguagem do corpo é que foi mais forte e expressiva, através de um abraço, um beijo e de uma viagem às lembranças do passado que meu pai tanto amava nos contar no passado. Quando criança era ele que me despertava a criatividade e me levava a conhecer lugares maravilhosos através da imaginação.

Meu pai tinha uma pequena chácara. Era a vida dele cuidar daquele lugar, criar vacas, plantar e cuidar daquela terra. Durante muitos anos ele continuou indo para lá, mas aos poucos fomos obrigados a diminuir os animais e com as atividades que ele fazia por lá, até que ele parou de ir. Ano passado vendemos esse terreno, depois de muita exitação. Foi um momento muito doloroso para todos.

Sinceramente não sei como vai ser no futuro. Mais do que nunca aprendi a viver o presente, a amar as pequenas coisas e detalhes da vida, a aproveitar cada segundo em que estou junto de meu pai. Foi muito difícil deixar minha cidade para estudar fora e deixar meus pais sozinhos. Minha mãe é a cuidadora dele e é muito difícil para ela cuidar de tudo sozinha. Mas o que me conforta é que tudo o que tenho feito é por eles. Tenho estudado, terminei uma faculdade, logo termino outra e tudo o que eu conquistar com o meu trabalho e estudo será para apoiar meus pais e dar a eles uma vida maravilhosa. Eles me deram tudo o que tenho de melhor, mesmo com dificuldades financeiras e mesmo de comunicação, eles nunca deixaram de estar presentes em minha vida e de me ajudar a me tornar a pessoa que sou. Amo muito eles e todos os meus sonhos são para florir a vida deles.

Deus tem me dado muita ajuda, me apoiando e iluminando todos os caminhos que escolho e também me apresentando pessoas maravilhosas que, mesmo sem saberem, me ajudam muito.

Um conselho para quem também passa com o Alzheimer na família: é preciso ser forte e evitar a tristeza e a depressão, isso só piora o estado emocional da pessoa com alzheimer e só ajuda a piorar. É preciso rir muito, amar, se entregar às coisas simples da vida, prestar a atenção em pequenos detalhes que normalmente não perceberíamos e se mostrar presente na vida dessa pessoa querida - que sempre vai te amar muito, porque o amor não se guarda na memória, mas sim na alma das pessoas.

 

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publicado às 21:01



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