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Pomarolla: Capítulo 2

por ornitorrincoquantico, em 30.01.07

Capítulo 02 – Muito Barulho por Nada

Eram quase nove horas da manhã quando o carro parou em frente ao portão secundário do castelo de Catchup, em Prosopopéia. Nádya desceu do carro e, enquanto dois criados pegavam sua bagagem, ela deu ordens ao motorista para que levasse a Coisa e a menina até as catacumbas.

Ela então parou e começou a observar o castelo. Começou a imaginar como seria sua vida de rainha. Lembrou-se do ódio que sentia do seu pai e como seria bom que ele estivesse vivo só para poder ver sua glória. Mas nesse momento um vento frio quebrou seus pensamentos. Ela olhou para o bosque ao lado do castelo e percebeu que as árvores vetoriais estavam em um movimento frenético. Por causa do vento, seus vetores apontavam para várias direções. De repente, todos eles pararam e imediatamente todos apontaram para a direção onde a Nádya estava, o que lhe causou um arrepio e um certo mal estar. Ela estava com medo do que a Coisa havia lhe dito.

- Vamos, princesa? – perguntou o jovem criado.

- Sim...

- A senhora está muito diferente, parece... desculpe-me a petulância, mas a senhora está parecendo uma legítima tomate, custei a lhe reconhecer.

- E sou, meu querido, estive em vários médicos e ele conseguiram alterar meu código genético. Agora eu tenho legítimo sangue de tomate correndo em minhas veias e sou uma lata de catchup.

- Nossa, que incrível! Mas a ciência avança a passos largos realmente. Nunca pensei que isso seria possível.

- Tudo o que eu quero agora é ver o meu amor, ele vai levar um susto quando me ver, não contei a ele. É uma surpresa!

- Nesse momento o criado parou como em choque e olhou para Nádya gaguejando.

- Mas o que foi, rapaz? Por que está aí parado? Pare de gaguejar!

- Uma coisa horrível aconteceu, minha senhora.

- Mas o que foi? – Nádya estava apreensiva e visivelmente abalada.

- O rei, nosso querido e bondoso rei, ele morreu!

- Ah, isso...

- E foi uma tragédia, a senhora nem imagina...

- Mas já era esperado.

- Não, foi horrível. E o seu marido...

- O que tem o Orlando? Ficou muito triste?

- Não, virou um monstro, saiu gritando feito um louco. Ele está lá em cima fazendo as malas e disse que não fica mais aqui nenhum minuto.

- Como é? – Nádya gritou assustada – Ele enlouqueceu? O que aconteceu?

- Não sei senhora, mas olha – o criado abaixou a voz e disse em tom de confidência – estão dizendo por aí, não sei se é verdade, que ele foi responsável pela morte do rei Lycopersico.

Nádya ficou apavorada, jogou sua bolsa no chão e começou a tremer e soluçar desesperada.

- Ele não pode ter feito isso... é impossível... sempre amou o pai, fez todas as vontades dele, sempre foi um ótimo filho. Sempre fez tudo certo...

- Eu sei senhora, também acho meio impossível. É que parece que ele brigou com o pai antes do velho morrer. E a briga foi feia. Sobrou até para o príncipe Solano, o príncipe Orlando deu uma surra feia no irmão. Xingou o primeiro ministro... nossa, D. Nádya foi um barraco horrível.

- Onde ele está?

- Está lá em cima, no quarto, trancado.

Nádya saiu correndo em direção à escada da torre do quarto deles.

"Ele não pode ter feito nenhuma besteira... ainda mais agora! A gente lutou tanto para chegar até aqui..."

Rapidamente ela venceu todos os 5.000 degraus da torre que levava até o seu quarto. Ela não conseguia entender o que aconteceu, precisava saber o que fez seu marido tomar uma atitude tão absurda. Enfim, chegou até a porta do quarto e ao perceber que a mesma encontrava-se trancada começou a batê-la e a gritar pelo Orlando.

- Orlando, abra essa porta!!! Sou eu, sua esposa, Nádya!!! Abra logo essa porta, Esculento...

Ele abriu, puxou a Nádya para dentro e voltou a trancar a porta. Olhou por alguns instantes para a esposa e logo a abraçou. Em seu rosto havia uma mistura de ódio e dor que há muito tempo Nádya não via nele. Estava mais vermelho do que nunca.

- Eles mentiram para mim...

- Eles quem, querido? O que aconteceu?

- Eu não sou filho do Lycopérnico, Nádya... eu não sou filho dele...

- Mas que loucura é essa? Como é que ele não é seu pai? Você é o filho herdeiro...

- Não, Nádya, eu não sou – ele começou a apertar com força nos braços da esposa – eu não tenho pai, não sei quem é meu pai... eu fui adotado...

- Você está me machucando... sente-se nessa cadeira, respire fundo e me conte direito essa loucura toda.

Esculento respirou fundo e tentou organizar as idéias, mas era difícil. Várias imagens passavam por sua mente agora e todo o ódio que ele havia reprimido nos últimos anos queria voltar à tona. Olhou para a esposa e só agora percebeu que ela estava diferente.

- Mas o que foi que aconteceu com você? Você... você... está vermelha??? É um pote de catchup? O que você fez?

- Pelo amor de Deus, isso não importa agora. Essa era a surpresa que eu estava preparando para você, para quando você assumisse o trono pudesse ter orgulho de ter uma esposa com o mesmo sangue que o seu. Mas, por favor, alivia minha agonia, me conte o que aconteceu de verdade com você e seu pai hoje.

- Fui avisado de que meu pai... quer dizer, aquele velho idiota, queria falar comigo, e já me prepararam afirmando que ele estava nas últimas e que morreria em questão de horas. Fui de bom coração, eu gostava dele, sim. Nunca fui falso nos meus sentimentos. Me aproximei da cama, ele estava muito mal. Olhou-me e disse que me amava muito, que eu era seu filho mais especial. Mas aí, disse-me que havia algo a me revelar, que nunca teve coragem de contar. Ele me revelou que eu não era seu filho legítimo, que uma criada havia me encontrado dentro de uma panela velha no rio Milkshake. Ele e a mamãe já estavam casados há 30 anos e não conseguiam ter filhos, então resolveram me adotar. Como eu era um macarrão instantâneo levaram-me até uma clínica médica no exterior, onde fui analisado por vários médicos e eles me criaram uma embalagem, adicionaram um sachê sabor tomate no meu código genético, para que eu tivesse o sangue real e me entregaram aos meus pais, que passaram a cuidar de mim.

- E o Solano? Ele é filho deles de verdade ou também é adotado?

- Não repita o nome desse desgraçado, minha vida seria perfeita sem esse infeliz. Eu devia tê-lo matado há muito tempo. Sim, ele é filho legítimo deles... apesar dele ser 5 anos mais novo do que eu ele é o verdadeiro herdeiro por causa...

- ...por causa da lei?

- Sim, por causa dessa maldita lei. Um filho adotado só pode assumir o trono se não houver outros filhos legítimos. Aquela peste sempre teve tudo do bom e do melhor, sempre foi paparicado, sempre teve suas vontades satisfeitas, passou a vida toda na barra da saia da mãe... eu não, fui criado para ser rei, sempre estive do lado de papai, sempre trabalhei desde pequeno, ralei muito, enfrentei tudo e a todos quando abandonei o reino para ir atrás de você. E eu voltei, porque acreditei que aqui eu tinha um pai de verdade, um pai que precisava de um filho para cuidar de seu reino. Eu fiz você perder tudo, você apostou todas as suas fichas para viver comigo, para ser minha esposa e eu lhe prometi um reino, prometi a você ser minha rainha...

Orlando começou a chorar. Nádya o abraçou e tentou tranquilizá-lo.

- Papai Lyco disse que queria mudar a lei, que queria que eu fosse o herdeiro, mas que não conseguiu. Parece que o primeiro ministro juntamente com o presidente de Prosopopéia e toda a câmara e o congresso estavam pressionando para que nada fosse alterado e que o Solano assumisse o trono com a morte de papai. Inclusive eles negociaram com a mamãe, para ela abdicar. Para eles era o melhor, afinal eles me odeiam e sabem que eu não seria um "amiguinho" deles.

- Eu sempre te disse que você precisava ser menos estourado, que na política é preciso saber bem com quem joga, quem são as peças e quais são as regras.

- Você sempre teve razão, acho que eu nunca seria um bom político.

- Mas o que você fez depois que o velho contou tudo isso?

- Nossa, subiu um ódio na minha cabeça, eu fiquei possesso. Comecei a xingar o Lyco e a gritar com ele e ele... bem, ele não resistiu a emoção.

- E o seu irmão?

- Ele e o maldito do primeiro-ministro entraram no quarto e tentaram me segurar. Eu não resisti, comecei a brigar com o Solano, esmurrei aquela cara amassada dele e ainda furei sua embalagem, espalhou tomate por toda a sala. Os guardas me pegaram e o primeiro-ministro me expulsou do reino. Olha só a petulância dele, quem é ele para me expulsar? Disse que em breve depositará na minha conta o que é meu por direito e o que está no testamento do papai mas que eu devo abandonar o reino. Mas olha, Nádya, mesmo que eles não me expulsassem, eu não continuaria aqui, ahh... não!!!

- E o que você vai fazer?

- Vou para aquelas terras que a gente comprou perto da região da Mercearia. Mas eu afirmo, eu não vou desistir fácil de Prosopopéia não! Lutei muito até hoje e continuarei lutando até o fim. Não sei o que farei, mas esse trono ainda será meu... será nosso... nosso e de nossos filhos.

- Sim, querido, eu acredito em você e pode ter certeza que eu também farei de tudo para lhe ajudar... mas...

- Mas o que?

- Eu não vou com você.

- Como assim não vai comigo? Você é minha esposa! Não seja ridícula!

- Pense bem amor, se você ainda quer dar a volta por cima precisará da ajuda de alguém aqui dentro. E em quem você confia para isso, além de mim?

- Ninguém, mas... eu não conseguirei viver sem você, eu te amo...

- Eu também te amo, Orly, mas nessa hora crítica, não existe outra saída.

- Mas eles não vão deixar que você fique.

Nádya ficou parada durante um instante. Aproximou-se da janela, refletindo. Por fim, disse:

- Vamos fingir que brigamos. Nós começamos a gritar, você pega suas malas e suas coisas e desce comigo junto. Você vai gritando que eu também fui falsa, que eu sabia de tudo e que nunca contei nada, que você não me ama mais... enfim, me detona, de forma que todo mundo escute e veja. Ah, e o mais importante, quando estivermos na frente de várias pessoas você me dá um tapa na cara.

- Você enlouqueceu? Eu nunca conseguiria fazer isso, seria incapaz de bater em você.

- Orlando Esculento, eu não estou brincando, nunca falei tão sério em toda a minha vida. Essa situação exige uma atitude rápida e essa é a única que me ocorre e você vai ter que fazer. Não mandei você ser tão descontrolado a ponto de espancar seu irmão. Você foi muito idiota, eu sei que você estava em estado de choque mas não importa a situação, nós temos que saber controlar nossas atitudes para não fazer besteira como você fez. E meu querido, não é só você que lutou para chegar até aqui, você não faz idéia de tudo o que eu enfrentei. E eu não vou jogar tudo no lixo agora! Agora vamos, pegue suas coisas e faça o que eu disse.

- Está certo, você está muito diferente, Nádya, e não só fisicamente.

- Esses anos de dor, falsidade e medo me ensinaram muito, esse reino ainda será nosso!

Orlando olhou com carinho para Nádya e a beijou profundamente. Sentiu um medo enorme de a perdê-la e nunca mais a vê-la.

- Eu te amo, May, sempre te amarei!

- Eu também, Orly, eu também!

- Mas agora – foi aumentando o tom da voz enquanto pegava suas malas – eu te odeio, sua falsa, mentirosa!

- Mas eu fiz para o seu bem, meu amor. Me perdoe...

- Nunca te perdoarei, sua bandida...

Saíram gritando pela escadaria, trocando alguns olhares cúmplices e sorrisos cínicos. Eram dois atores interpretando e precisavam convencer a platéia.

Haviam várias pessoas no saguão de entrada do castelo, entre elas Solano, sua esposa Mamela, o Primeiro-ministro e outros políticos. Quando os viu, Orlando agarrou Nádya pelos cabelos, empurrou-a na sua frente, próximo a Solano, e deu-lhe um soco que a jogou até o chão, próximo aos pés de Mamela.

- Você, sua bruxa, fique com os seus, esses idiotas traidores. Eu não posso mais olhar para essa sua cara nojenta, traidora. Foi cúmplice deles esse tempo todo e nunca me contou nada, me fez de bobo, se passando por esposa dedicada...

O Primeiro-ministro segurou Orlando pelo braço e o empurrou em direção a saída.

- Vai embora daqui, nós não precisamos mais de você, seu louco, psicopata... Pegue sua carruagem e suma de Prosopopéia, você está proibido de tornar a pôr os pés aqui novamente. Agora todo o reino sabe quem você é de verdade, e estamos livres de sua petulância e arrogância... ahahaha... achava que seria rei? Era isso o que queria, não é? Aposto que sonhava com a morte do Rei só para assumir o trono. Não sabe como eu aguardei esse dia, como sonhei em ver sua cara de derrotado e fracassado. Leve suas coisas, depois indique um endereço que a gente termina de enviar o resto, não quero nada que seja infectado por sua pessoa aqui neste castelo.

- Olha aqui, sua lata de milho estragada, esse ainda não é o fim. Não pense que eu ficarei quieto. Quando você menos esperar, eu estarei de volta, e cobrarei o que me é de direito.

- Você não tem direito a nada, nem ao pó dessa cidade.

- Espere... tenha paciência...

- Suma daqui!!!

Orlando saiu correndo do castelo, bufando e empurrando a todos que estavam no seu caminho, até chegar na sua carruagem, que já estava preparada, em frente ao castelo.

Enquanto isso, Nádya chorava, amparada nos braços de Mamela.

- E agora, Mamela? O que será de mim? O que eu faço, para onde eu vou?

- Como assim, minha querida, você não vai para lugar nenhum, você continuará aqui. Você é, e sempre será, parte da família.

Solano quebrou seu silêncio perguntando à Nádya se era verdade que ela sabia que o Orlando era filho adotivo.

- Sim, eu sabia, Lycopérnico me contou tudo. Foi ele também que me ajudou a encontrar os médicos que trataram do Orlando e foi assim também que eu consegui modificar meu código genético e me tornar uma legítima sangue de tomate.

- Mas porque você fez isso?

- Eu não queria que acusassem o Orlando de se casar com uma mulher que não possuía sangue real, como da outra vez, com meu pai... – começou a enxugar as lágrimas com um lenço que a Mamela lhe deu.

- Mas isso é possível? – perguntou o Primeiro-ministro, que também estava achando tudo aquilo muito estranho.

- Sim, é. Mas não é algo divulgado, na verdade é proibido. Foi muito doloroso, difícil e demorado. Tive sorte em ter sobrevivido.

- Pra mim é uma coisa inútil, você continua sendo quem era do mesmo jeito – disse o Primeiro-ministro – você foi muito boba e ingênua.

Mamela a abraçou com mais força e continuou a motivá-la.

- Você o ama muito, não é? Fez tudo isso por ele e ele lhe retribuiu dessa forma. Ele é um monstro, não merece você.

Solano estendeu a mão para a Nádya e disse, com um gesto fraternal:

- Venha, minha cunhada, você é especial! Sempre gostei de você, sabe disso, e quero que esteja do nosso lado agora, precisaremos ter muita força para tocar esse reino em frente, e você é uma pessoa em que confio. Saiba que você é uma irmã para mim. Agora, então, você ocupou definitivamente o lugar de Orlando em minha família. Essa casa é sua também.

- Obrigado, meus queridos, obrigado por me ampararem. É bom ter amigos e saber que podemos contar com eles nas horas difíceis. Nunca me esquecerei do que fizeram para mim.

- Desculpem-me a intromissão, mas agora que as coisas se acertaram, vamos organizar o velório do rei – disse o Primeiro-ministro, seco como sempre. Foi logo batendo palmas e fazendo exigências aos empregados e à guarda.

- É claro, Benedito, vamos!

Nádya se despediu de Mamela e dirigiu-se até as escadas do seu quarto.

"E agora? Continuar engolindo sapos. Terei que reordenar totalmente daqui para frente. Que ódio! Boca maldita a da Coisa, foi praga dela, tenho certeza."

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publicado às 19:35



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