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Kandinsky - Análise de imagens (Parte 2 de 3)

por ornitorrincoquantico, em 28.09.09

 

Observem atentamente a pintura acima e pensem: o que ela nos lembra?

 

Riscos sem muita forma, figuras humanas estilizadas, mistura de várias cores com pinceladas não muito precisas... não lembra um desenho infantil?

 

Pois é, não só lembra como é um dos principais motivos que levou Kandinsky a realizar estudos sobre o abstracionismo e a desenvolver essa nova forma de arte. Kandinsky queria descobrir como é que nascia a consciência estética no ser humano e o porque ela desaparecia com o tempo.

 

 

Vejamos o que diz Argan, em seu livro “Arte Moderna”, sobre a pintura de Kandinsky:

 

“Em 1910, Kandinsky estava com quarenta anos e contava com um belo passado de pintor figurativo. De repente, esquece o ‘ofício’ e começa a rabiscar como uma criança de três anos que ganhou papel, lápis e tintas [...] Kandinsky se propôs reproduzir experimentalmente o primeiro contato do ser humano com um mundo do qual não se sabe nada, nem sequer se é habitável [...]. Essa primeira experiência da realidade é denominada pelos psicólogos como estética: uma experiência a que corresponde um tipo de comportamento. A criança, sem dúvida, percebe, recebe sensações do mundo exterior; mas a percepção não se define como noção, traduz-se num conjunto de movimentos instintivos, com os quais a criança pega o que a atrai, afasta o que a atemoriza. Se dispõe dos instrumentos necessários, transforma esses gestos em signos, que por sua vez são percebidos; e, como o mundo existe para ela enquanto ela o percebe, ao fazer algo que se percebe, está afirmando sua vontade de fazer a realidade, de existir. Kandinsky [...] se propõe [a] analisar, no comportamento da criança, a origem, a estrutura primária da operação estética. Com efeito, todos sabem que o comportamento estético cessa quando a criança, ao crescer, aprende a ‘raciocinar’: a primeira experiência do mundo, isto é, a experiência estética, é esquecida, transferida para o inconsciente. Apenas poucos indivíduos – os artistas – desenvolvem-na, ligam-na a certas técnicas organizadas, dela extraem objetos a que a sociedade atribui certo valor”.

 

É preciso buscar a criança que existe dentro da gente para entrar no mundo das obras de Kandinsky.

 

Vamos tentar descrever o que vemos na imagem.

 

Apesar de não-figurativa, percebemos formas que lembram figuras conhecidas. Os riscos do lado direito lembram 4 pessoas, duas mais próximas e as outras mais distantes. Há 2 riscos pretos cortando a tela o que nos faz lembrar uma estrada, porque ao lado desses riscos observamos 3 manchas vermelhas que nos lembram casas. Ao perceber essas estradas, vemos que as duas pessoas da direita estão caminhando por elas. À esquerda também vemos algo que lembra tanto uma outra estrada como um rio, formada com riscos pretos, azuis e violácios, com várias ondulações. Pela sua cor azul e pelas outras manchas azuis podemos dizer que representam mesmo as águas de um rio. E reparem que todos os outros riscos pretos também nos lembram estradas e caminhos. Há inclusive um arco-íris à esquerda. A parte superior à direita está pintada de azul e com uma grande mancha colorida de laranja, violeta e amarela, o que nos lembra um sol no céu.

 

Enfim, todos os elementos nos levam a crer que essa pintura nos leva recordar a imagem de uma paisagem de campo, numa tarde ensolarada. Mas só conseguimos ter essa percepção se olharmos para a imagem com um olhar infantil, como se ela tivesse sido pintada por uma criança, aí a paisagem parece ficar clara para nós. Quanto mais tempo olhamos para o quadro, mais a gente recorda nossa forma de ver o mundo escondida em nosso insconsciente e que nos acompanhava durante a infância.

 

Viu só como a arte abstrata mexe com os nossos sentimentos e sensações? Com certeza a minha percepção é diferente da sua e é isso que deixa a arte abstrata tão interessante. Comece a observar outros quadros abstratos, busque a sua visão infantil escondida em você e se entregue a essa forma de arte fascinante.

 

E porque não experimentar também? Peque tinta, lápis, lápis de cor e papel e tente também criar formas e cores que estão escondidas em você. Não procure por sentido, procure expressar o que sente e o que as formas e cores despertam em você. Com certeza será uma atividade interessante e o ajudará a entender melhor a arte abstrata.

 

Na próxima análise, mais um quadro e mais uma característica de Kandinsky: a música cromática.

 

Até lá!

 

Referência:

 

ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

 

 

Não viu a análise anterior? Clica no link abaixo que eu te levo lá:

Kandinsky Parte 1

 

PS: Peço mil desculpas aos leitores do meu blog pelo atraso na publicação desse post. Estou envolvido na realização de diversas atividades, como a conclusão do meu TCC, estudos para tentar entrar no mestrado e atividades de docência, o que tem consumido muito o meu tempo. Consegui agora escrever mais um pouco sobre Kandinsky mas não vou prometer uma data para o último post dele. Continuem acompanhando que assim que concluir aviso. Semanalmente publicarei algum texto de minha autoria para que o blog não fique parado. E se quiserem também podem acompanhar meu outro blog "A retórica do dragão-de-komodo", lá eu falo de tudo um pouco e está sempre atualizado com alguma reflexão minha. Obrigado e boa leitura!

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publicado às 19:04


3 comentários

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De katharina a 17.06.2010 às 00:27

Eu gosto muito dos seus post sobre ler as imagens, é uma coisa que eu tinha procurado muito na internet, eu gosto muito de arte e dos misterios que o artista deixa em uma obra, é maravilhoso poder aprender a observar mais as coisas :)
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De ornitorrincoquantico a 24.07.2010 às 06:11

Obrigado Katharina, fiquei muito feliz com seu comentário!!

Com o fim da minha faculdade e começo de um emprego fiquei totalmente sem tempo, por isso não escrevi mais, mas assim que tudo normalizar darei prosseguimento.

bjo
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De Paulo a 19.03.2012 às 01:00

Adorei os posts sobre kandinski. Muito esclarecedores. Eu queria entender alguma coisa sobre a pintura abstrata, e, sobretudo, kandinski, e seus posts me ajudaram bastante. Pena que não encontrei o 3º da serie de 3. Eu estava muito curioso. Sucesso! Obrigado.

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