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Livro Coletivo - Cap. 7

por ornitorrincoquantico, em 10.09.09

E este é o último capítulo que foi escrito. Originalmente a intenção era que o livro chegasse ao fim no décimo capítulo, mas ficamos sem autores que pudessem dar continuidade. Deixei toda a história aqui no meu blog para caso alguém se interesse em dar continuidade entre em contato comigo. Muita gente me cobra até hoje pelo final dessa história, espero poder concluir ela um dia.

 

 

Capítulo 7

Encurralado

Marcelo Pacheco de Souza

 

            – Ricardo? É você? – perguntava Vandely do outro lado da linha.

            – Claro que sou eu. Você precisa me ajudar...

            – O que está acontecendo?

            – A polícia está aqui me procurando e eu não sei o que fazer. Eles estão me acusando de ter matado o Jefinho e ameaçando invadir minha casa.

            – Estamos indo. Tente ficar calmo que eu estou perto daí.

            - Oh sim, eu vou tentar manter a calma enquanto eles me arrebentam...

            Nisso um forte estrondo soa e a porta da casa cai pesadamente no chão, abrindo espaço para que os policiais invadam e invistam em sua direção. Ricardo não teve tempo de fazer nada. Ficou parado catatônico olhando a cena, aparentemente resignado. Um policial o derrubou, enquanto outro o algemava. Além deles, outros dois apontavam as suas armas em sua direção.

            – O que é isso?? – gritou Ricardo, num misto de medo e surpresa.

– Quieto! – gritou um deles – aqui quem faz as perguntas somos nós.

– Araújo! Magalhães! – gritou aquele que parecia ser o superior – Dêem uma busca no lugar enquanto nós revistamos o sujeito.

Ricardo já não conseguia organizar os seus pensamentos, apenas limitava-se a balbuciar queixas enquanto era revistado pelo que parecia ser dois lutadores de vale-tudo. Aquilo não podia estar acontecendo. Não é possível alguém ter a vida tão radicalmente mudada em tão pouco tempo, sem fazer a mínima idéia do que o levou a tal condição. A cada dia que passava ele parecia receber um novo golpe que o fazia repensar a sua vida, a sua situação. A pouco tempo a sua rotina era de uma monotonia total, agora cada minuto por vir era uma incógnita. “Graças a Deus as meninas não estão em casa”, pensou, tentando encontrar algo de positivo naquilo tudo.

Os policiais pareciam se divertir enquanto reviravam tudo em volta. Móveis e objetos eram quebrados sem a menor cerimônia, em busca de algo que Ricardo nem suspeitava o que fosse. Nisso, um deles retira algo do bolso de Ricardo e entrega para o chefe.

– Veja isso, tenente – diz o policial, enquanto entrega duas folhas de papel dobradas.

O tenente desdobra-as e ao ver do que se trata, seu rosto parece iluminar-se. Mostra-as  para Ricardo, perguntado com a voz carregada de sarcasmo:

– O senhor poderia me dizer o que é isso?

O coração de Ricardo pareceu parar. Tratava-se de duas folhas arrancadas de um livro. O mais surpreendente é que as folhas eram das páginas 11/12 e 21/22, sendo que na primeira, a página 11 estava completamente rabiscada e a palavra “eliminar” estava sublinhada na página 12. Na outra, estava sublinhado “imprevisto” na página 21, enquanto a 22 estava em branco. Num momento ele se lembra das páginas que faltavam no livro que caiu da bolsa da tal Josiane, naquela perseguição no hospital. Páginas que formam os quatro últimos dígitos de seu telefone, numa infeliz coincidência.                                                                                                                                                                                                                                                                                                             

– The Game Theory... – as palavras parecem fugir da boca de Ricardo em forma de um balbucio, uma súplica.

– Vejo que você sabe exatamente do que se trata, agora vamos dar uma voltinha – diz o tenente arrastando Ricardo para fora da casa.

- Mas o que está acontecendo? Eu nunca vi essas páginas na minha vida. – bradava sem despertar o menor interesse naquelas pessoas.

Ao chegar na calçada ele é atirado na parte traseira de uma caminhonete de carga, os dois brutamontes entram e sentam-se ao lado dele. As portas ainda nem estavam completamente fechadas e o veículo arranca “cantando pneu” e deixando para trás um cheiro forte de borracha queimada.

Foi então que um pensamento aterrorizante surgiu na mente de Ricardo, levando-o a temer por sua vida: em momento algum os supostos policiais mostraram qualquer identificação, e o que é pior, se eles são mesmo quem dizem ser, por que estão dirigindo essa caminhonete e não uma viatura? Quem seriam aquelas pessoas?

– Pra que delegacia estão me levando? – pergunta, já com medo da resposta. E essa vem em forma de uma sonora gargalhada.

– Não se preocupe – responde um deles – eu tenho certeza que você vai apreciar muito as acomodações.

– Mas eu...

Ricardo não pôde terminar a frase, sentiu um duro golpe na cabeça e tudo escureceu e ficou em silêncio.

 

*          *          *

 

Ricardo acordou com uma generosa borrifada de água no rosto, mas não conseguiu enxergar nada à sua volta, pois estava vendado. A sua cabeça doía muito e sua posição não era das mais confortáveis: encontrava-se amarrado a uma cadeira, com uma corda grossa que machucava a seus punhos, sua cintura e seus tornozelos. O local era muito frio e a umidade parecia grudar em sua pele. Pelos ruídos externos, teve a impressão de que o lugar era afastado da cidade, não se ouvia vozes nem barulho de trânsito, apenas um distante cantar de pássaros e ruídos de animais comuns em uma fazenda.

– Onde estou? Quem está aí? – perguntou Ricardo, completamente confuso e apavorado.

– Isso não vem ao caso. A questão agora é por quê você está aqui. E já te adianto que a tua situação é muito delicada. Todos os acontecimentos têm convergindo na tua direção e eu não costumo acreditar muito em coincidências.

Ricardo reconheceu algo de familiar naquela voz, mas não conseguiu identificar. Era uma voz feminina que com certeza ele já ouvira antes. Mas existia algo que não se encaixava e ele não conseguia imaginar o que era.

– Que acontecimentos? – sua voz soava embargada, quase suplicante - Pelo amor de Deus, eu não faço a mínima idéia do que você está falando!

– Não creio que isso seja verdade. Há tempos que eu venho te observando e sempre quis acreditar na tua inocência. Claro que o fato de eu nutrir uma certa simpatia por você, que sempre me tratou bem, pode ter afetado o meu julgamento nesse tempo todo, mas depois do seu encontro com a Vanderly e o Salomão, confesso que a minha opinião começou a se formar. Eu tenho ainda, uma pequena esperança de que você não saiba exatamente no que está envolvido, mas não deixarei que meus sentimentos atrapalhem a minha percepção. Agora, se você me der licença, eu vou me ausentar  por alguns momentos. Logo, logo eu volto e aí você vai me contar toda a história.

Ricardo ouve o barulho da porta se fechando e sons de passos se afastando até ficarem inaudíveis. Novamente estava só na sala ou o que quer que seja o local em que se encontrava. Ele precisava se lembrar de quem era aquela voz. Por que ela dissera que ele sempre a tratava bem? Isso só reforçava a idéia de que era alguém próximo.

Passado algum tempo, ouve-se o barulho da porta abrindo-se novamente e sons de passos aproximando-se. Mas dessa vez aparentava ter mais pessoas.

– Sentiu saudades? – perguntou aquela voz familiar em tom irônico – Eu te trouxe algo pra comer e beber, em troca de algumas informações.

– Eu já disse que não sei de nada – a sua voz já não tinha mais força. O desânimo começava a vencê-lo. Ele não fazia idéia de a quanto tempo estava sentado naquele lugar, mas pela fome, sede e dormência de quase todo o seu corpo, indicavam que já fazia muito tempo. Não havia músculo de seu corpo que estivesse dolorido.

– Pôxa, mas você está péssimo! Não tem dormido direito? – perguntou rindo – Peço desculpas pelas acomodações não serem as ideais. Eu detesto a idéia de que não me considerem uma boa anfitriã, mas infelizmente a situação levou a isso. Agora, deixemos de formalidades, vou te dar de comer pra você clarear as tuas idéias e me contar a verdade. Eu vou te desamarrar, mas você não se anime muito que eu estou bem acompanhada, portanto nem pense em tentar nada.

Ele se sentiu aliviado de ser desamarrado e ter a venda retirada. Nisso, percebeu que não seria aquele o momento em que ele acabaria com a dúvida sobre a dona da voz, pois ela estava usando uma máscara de Papai Noel, “nada como ter bom humor”, pensou. Ao seu lado os dois “policiais” que o acompanharam durante a viagem, armados. Certamente era essa a boa-companhia citada.

Ricardo devorou a comida, um enorme sanduíche e uma garrafa de água mineral em questão de segundos. Aquilo, realmente lhe deu um novo ânimo. Agradeceu educadamente, mas a mulher não estava muito preocupada com amenidades.

– Eu quero que você me explique o que significa isso? – disse acintosamente, enquanto mostrava as páginas do livro.

– Eu juro que nunca botei a mão nisso.

– O fato de ter sido encontrado no teu bolso nos leva a crer que isso não é verdade. Pelo o que eu pude perceber, o Jefinho era uma “imprevisto” a ser “eliminado”, certo?

– Mas porque eu iria querer matar ele?

– Obviamente pelo fato de vocês terem descoberto que ele era um agente duplo.

– Vocês? Agente duplo? Do que você está falando?

– Essa sua insistência em se fazer de desentendido está começando a me aborrecer. Mas vamos lá: eu sei que você sabe sobre o projeto Cybele e os Ceifadores, embora eu não goste dessa denominação. O Jefinho foi infiltrado por nós para nos contar os passos que vocês estavam dando e pagou com a vida.

– Eu já disse que não faço parte disso. Aquelas folhas devem ter sido plantadas. Tem alguém querendo me incriminar.

– Talvez até pudesse ser. Talvez o fato das páginas formarem o número do teu celular seja uma mera coincidência, mas me explique então por que você ligou para o Jeferson menos de uma hora antes dele ter morrido.

– Eu não liguei para ninguém. Eu nem ao menos sei qual o telefone dele.

– Não é o que diz o registro de chamadas do seu celular – disse a sua “anfitriã” mostrando o telefone de Ricardo.

– Mas eu tinha perdido ele naquele dia.

– Eu sei, quer dizer, pelo menos era isso o que você queria que nós pensássemos.

– Como assim? Quem é você afinal??

– Bem, acho que não tem mais motivo para eu esconder a minha identidade, deixa eu acabar com essa tua dúvida. Pode ser que assim você perceba que não tem como me esconder nada.

A mulher tira a máscara, revelando o seu rosto. Ricardo não pode acreditar no que vê.

– Suzi? Você??

- Sô eu sim, dotô. Num recunheci a minha vóiz?

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publicado às 18:31



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